quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Interlúdio

Nem toco nas paredes.
Me esgueiro entre os corredores e as palavras,
entre os gestos e os olhares.
Qualquer centelha pode fazer fogo.

Nem quero me ferir.
Me escondo atrás da porta,
entre bolsas e sapatos em desuso.
Falo pouco, lembro menos.

Qualquer movimento pode acelerar o tempo.
Um tempo em que eu não era criança
e nem podia temer o vindouro.

Piso devagar, nem faço barulho.
Adio a vida, o toque, o susto, o riso e a dor.
Ninguém me percebe atravessando a rua.

Esperto disfarce de fada, maga ladina a brincar de esconde.
Lá na frente é hora do banho, do sono.
Talvez eu nem durma.
E então abra os olhos

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Minhas teorias sobre amor e encantamento

Das coisas que ouvi ontem, uma das que mais me fez pensar foi sobre o desafio que proponho da permanência do encantamento. Gosto mesmo de manter as relações pessoais no limiar gostoso da sedução porque isso faz bem para mim, me alimenta, exercita minha capacidade de conquistar e, principalmente, de fazer a manutenção dessa conquista. Parece cartersiano demais, não é? E até ouvi isso ontem também. Tenho um lado bem prático, que não raras vezes organiza o pensamento e até mesmo as emoções na direção de objetivos definidos. É claro que tudo é um jogo, que pode dar certo ou não, que posso vencer ou não e que sobre o qual é sempre possível a mudança de ritmo ou de direção. Mas do encantamento não posso abrir mão. Gosto demais desse estado latente que aquece minh´alma, aguça meus sentidos, estimula minha criatividade emocional na busca da percepção do outro sobre o meu encantamento ou, o que é melhor ainda, no envolvimento do outro nessa saborosa viagem da sintonia e do amor.
Não sei se os que me lêem acham tudo isso meio louco ou se, ao contrário, vão comigo concordar. Somos todos marionetes e manipuladores. E nem vejo nisso nada tão cruel. Na verdade, não gosto de viver histórias ou relações sobre as quais não tenho nenhum controle. Posso até perder um pouco as rédeas pelo caminho, quem sabe afrouxá-las ao sabor da deliciosa viagem, e até experimentar o fato de que minhas mãos não são tão fortes ou capazes de conter a fúria boa desse encantamento. Mas, sim, gosto de segurar a cordinha. Os que me descobrem e que por mim se encantam vão logo saber que também podem puxá-la, porque eu deixo, porque eu quero, porque eu gosto. Não há usurpação no amor de verdade. Só encantamento.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Personagens

Já fui tantas pessoas por aqui e todas se fizeram voz através de minhas letras. Bem ou mal escritas, todas tiveram vez. Não sou cruel com elas, personagens que carrego e que vão se revezando em eventuais apresentações. Seja em circo mambembe do interior ou na gala grandiosa do imponente teatro. Sou tudo isso e é nesse grande mix de egos e almas que construo minha história.
Minha personagem de hoje perdeu-se de suas certezas e afundou na movediça areia da dúvida. Galhos e cordas cercam-me de oportunidades, mas dói pensar que tenho que escolher uma delas. Não queria decidir, apenas apontar. E somente a luz desse dedo mágico já iluminaria o cristalino caminho do que é melhor para mim.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Reconstruindo

Alguns acontecimentos me vulnerabilizam de forma tão preciosa que me sinto tentada a discuti-los incessantemente até que a zona do conforto novamente me permita o olhar racional. Gosto da idéia do encantamento e ainda que racionalize minhas emoções, não há nada mais prazeroso do que a harmonia eventualmente expressa entre o que sonhamos e o que vemos sonhar nos olhos dos que nos cercam. Penso sempre que isso vale para todas as nossas formas e expressões de amor, das íntimas às fraternais.
Já disse em algum post aí prá baixo do quanto me permito a idéia de que posso mudar o mundo, de que sou artífice da grande aventura de transformar, a mim e aos que me cercam. Não necessariamente para melhor, embora o objetivo - ainda que tortuoso - seja sempre esse. Mas nessa cruzada nada bíblica, as tormentas são infindas; as conquistas, gloriosas; e as decepções, nas raras vezes, épicas. Porque no meu sonho e na minha "vibe", muitos embarcam, mas também saltam antes do ponto final.
Esse é só o relato de uma decepção pessoal, expressa num acontecimento do meu cotidiano profissional e que, sem dúvida, me vulnerabilizou além do que posso, momentaneamente, compreender. Me sinto ingenuamente traída em propósitos sobre os quais só tenho o olhar nobre. Talvez o equívoco seja esse: preciso reconhecer que ao largo de meus sonhos estão os delírios; que eles talvez sejam apenas expressões do espírito humano errático; que faço parte desse mundo de desvios e falhas também; que se não tenho - e não tenho mesmo - o desejo alienante de formar um exército de iguais, as diferenças, surpresas e decepções fazem parte do jogo.
Não sou tão boazinha assim a ponto de engolir fácil as sensações de injustiça ou manipulação que experimento. Muito pelo contrário. E falar disso por aqui também me oferece a aspirina sanativa do desabafo. Não sou melhor e nem pior que ninguém. Não perder esse foco, essa ótica, certamente me ajudará na percepção de que nem sempre escolhemos o nosso caminho, mas podemos reconstrui-lo sempre. Acredito nisso. E hoje começo, mais uma vez, a reconstrução.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Lúcida, enfim!

Hoje acordei com a sensação de que dormi, fui abduzida e retornei com a clareza dos sábios. Nem sei se os que me lêem já viveram situação semelhante, mas não é incomum que comigo ocorra. Quando o buraco parece imenso e profundo, e a lama recobre minha alma e o corpo físico, um extraterrestre cristão e salvador me faz dormir e a abdução desperta-me absolutamente poderosa.
Lucidez. Essa é a palavra de hoje. Sinto-me de olhos abertos e acurados em direção aos múltiplos caminhos que se agigantam na minha frente. E essa sensação me é tão cara! Gosto de estar, ainda que movida pela emoção, racionalmente equilibrada, com o olhar agudo e amplo sobre os fatos e suas - ou minhas - dificuldades.
A lucidez me traz equilíbrio, ousadia na medida potencialmente certa, segurança diante do risco. É estrada que não conheço, mas domino. É poder. No substantivo, no adjetivo e no verbo. Conjugado em todos os modos e tempos.
Clareza e clarividência. Retiradas as interpretações esotéricas, é como se pudesse olhar o campo de batalha tal qual o general estrategista. Bem longe do front.
Hoje descobri - e talvez seja só hoje - como mexer as peças, transferir os exércitos, conquistar entradas e bandeiras, descobrir saídas secretas, desvendar os anagramas indecifráveis.
Deliciosa sensação que me fortalece, que me devolve ao Shangri-lá - efêmero que seja - dos dias de sol e céu azul. Até faço graça, sem contar os bons negócios que a clareza - generosa e sem restrição à ação capitalista - me proporciona.
Estou leve e criativa. Nem preciso traduzir esse bem em textos, mas as palavras e as vastas emoções fraseiam meu caminho. E me fazem melhor. Muito melhor.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Prá respirar

Sei que fugi de mim, de alguém que me surpreende e seduz, que me assusta e atrai, que me escraviza e liberta.
Sei onde estou escondida. As frestas e vielas permanecem violáveis, fugidias e fingidas, a expor a face que não mais se traveste. Mas fugi de mim, de alguém que me impõe a revolução, que atravessa as estradas e ignora o tráfego, que subverte a ordem e vai às ruas.
Barricadas incendiárias. Nem mais sei quem sou, mas ainda me trago à tona pra respirar, e me acalmar, me enganar, me perdoar. Nem tento explicar, nem quero. Fecho os olhos e os coquetéis molotov cruzam meus céus tal qual as traçantes balas da madrugada carioca.
Mas corro e escondo essa face que corrompe minha caminhada tranquila, que me impõe o trajeto tortuoso, entre pedras e declives. Sei que fugi de mim....mas já me entreguei há algum tempo.
Fui abduzida pelo encantamento e minha resistência goteja. Volto a pensar na imagem metaforizada que já não me abandona mais: o que posso fazer para conter esse mar?

terça-feira, 22 de julho de 2008

Tempo de moinhos

Quero lembrar de um tempo
entre o sim e o talvez,
onde construíamos castelos,
escutávamos moinhos,
plantávamos na terra
o verde inquietante.

Quero falar de um sonho
que criei com lucidez e delírio,
atropelando os designíos
em verbos e frases sem métrica.

Quero ver novamente teu sorriso,
nunca demasiado, sempre intenso,
a dizer-me de um tempo
entre o hoje e o amanhã.

Porque sempre é tempo..............não é mesmo?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Ilações sobre o amor

Das várias ilações sobre o amor, gosto daquela que diz que nos apaixonamos pelo que reconhecemos de nós mesmos no outro. Talvez em doses mais equilibradas, talvez não. Mas é delicioso estar em sintonia de prazer e admiração com a resposta que vemos, com o olhar apenas e nem sempre com os ouvidos, no objeto de nossa paixão.
Curioso é perceber - e hoje vivi essa experiência - o quanto me fere e frustra ver - literalmente -ou reconhecer no outro o reflexo do que abomino em mim. Como as reações destrambelhadas e intempestivas, a ausência da razão, a agressividade desmedida, a mágoa revivida. Esse sentimento realmente me fere, me frustra, me faz reconhecer uma face que não me atrai ou apaixona.
O amor nos permite a interferência? A sacudidela emocional que leva o outro - ou a nós mesmos - de volta aos trilhos? A argumentação equilibrada quando os mares são de tempestade?
O amor nos permite dar feições eventualmente tragicômicas aos acontecimentos que rompem a métrica perfeita da paixão? Na verdade, acho que sim. Porque somos seres erráticos em busca de finais felizes, das paixões intermináveis, da profunda sintonia que preenche nosso corpo e alma. Sei do delírio de minhas blogueiras palavras mas, tal qual os poetas, sofro os sonhos e sonho o sofrimento.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Só porque experimentei....

Gosto de pensar em lugares para os quais desejo voltar sempre. Gosto de pensar em emoções que experimentei e que sempre penso retomar. Curioso como esse gostar nunca mais é igual, por mais prazer que ele te cause.
Tem lugares que conheci na vida e para os quais retornar é sempre um objetivo. Para alguns deles já retornei várias vezes e sempre relembrei, em outras cores e com outro olhar, o impacto que me causam. Sou carioca e não tem uma vez que atravesse o Túnel Rebouças e que não me tome do sentimento de êxtase que a visão da Lagoa Rodrigo de Freitas, descortinando-se aos meus olhos, me traz.
Amo voltar a Porto de Galinhas e embora a veja cada vez mais cidade grande, mais urbana, mais cheia de gente e lojas, sinto-me encantada diante daquele marzão absurdamente azul, em especial quando estamos próximos do meio dia. Voltaria a Paris todos os anos e ficaria novamente embasbacada diante da Champs-Élysées com o Arco do Triunfo ao fundo. Me sinto - essa é a verdade - premiada, como se desfrutar daquilo tudo fosse uma benção que me foi oferecida.
Adoro o clima praiano, simplório e, ao mesmo tempo, cosmopolita do norte da Espanha, especialmente da região da Galícia, onde meu pai vive. Tenho sempre a doce lembrança de estar sentada em um dos muitos bares da beira mar de Sanxenxo, uma cidadela absolutamente atraente.
Não abro mão nunca de um fim de tarde a caminho do Arpoador. E de um bom papo, de amigos, de bons vinhos e do ócio também. São sempre retratos dos meus momentos especiais, que retomo mas sempre experimento de forma diferente.
Pensei nisso hoje porque tenho experimentado deliciosas sensações de prazer com meus filhos. Prazer que já não mais se expressa apenas no doce e generoso carinho que trocamos, mas especialmente nos momentos em que os vejo felizes. Indescritível sensação. E por mais que esse sentimento também se revele de formas e dimensões diferentes, é bom demais.
Me sinto feliz e plena. E aí é inevitável: lembro de Paris, da Galícia, de Porto de Galinhas e do pôr-do-sol no Arpoador.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Brincando com as palavras

Quem sabe me transforme,
mude a roupa,
esqueça as máscaras,
apague do calendário os dias carnavalescos.

Quem sabe me pinte,
sorria inocentemente,
brinque de roda,
traga prá perto os duendes que adormecem no jardim.

Quem sabe corro e tropeço,
ralo o joelho,
torço o pé
e levanto com a força dos biotônicos vitamínicos.

Quem sabe digo não,
e faço birras,
enrugo a testa,
implicantemente ranzinza e boboca.

Quem sabe amadureço,
vire gente grande,
perca a pureza
e me tome das dores que desprezo.

Mas, quem sabe, perca o tino,
arranque o siso,
atravesse a estrada
e reconheça a entrada do parque.

Aí vou ser criança vestida de gente grande com joelho ralado e boboca abraçando duendes sorrindo inocentemente em dias de carnaval.

Tudo ao mesmo tempo agora!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A parcela da dor

Temos todos uma alma infeliz que, sem avisar, sorrateiramente se instala em nossas vidas como se a ela devêssemos parcelas da conta de viver? Crescer é sofrer? Amar é sofrer? Viver tem que necessariamente incluir a parcela do sofrimento?
Tenho lido tantos relatos ou olhares metaforizados sobre as dores da alma que já faz algum tempo pensei em escrever sobre isto. Nossa mente é o paraíso e o inferno. Nos faz artífices do prazer e escravos da dor de nos sabermos fracos diante do que nos faz sofrer. E sofro por amar demais, por desamar, por me sentir só ainda que cercada de gente, por querer estar só quando cercada de gente, por sentir-me sem alternativas, por ter que escolher uma entre várias, por seguir caminhos tortuosos, por entortar-me para fazer emocionalmente o caminho tranquilo.
E sofro mais ainda porque sou capaz de olhar racionalmente a dor. Engraçado isso. Nunca me dei conta da crueza desse olhar racional e analítico sobre minhas próprias emoções. E minha amiga mais amiga me disse isso outro dia. Foi quando percebi e senti a clareza dessa afirmação. Sou emocionalmente capaz de olhar a dor de dentro e de fora.Sou fogueira com a mangueira de água na mão.
Sou forte. Sei que sou. Posso tudo porque racionalmente compreendo o tudo. Um tudo, às vezes, tão pequeno. Sou fraca. Sei que sou. Porque não posso tudo, embora emocionalmente o veja possível. Me revelo nessas letras, entre as vírgulas e parágrafos. Estou repleta - especialmente hoje - de parênteses e reticências. E tantas vezes só quero que alguém me dê a mão para atravessar a rua. Alguém que pode ser você, que está agora na calçada à espera de uma pequena ou grande mão, segura e audaciosa o suficiente para cruzar a avenida e te guiar.
As dores da alma não são exclusividade dos que escrevem, dos que falam, dos que riem, dos que choram. Elas pairam no ar tal qual os vírus, dilacerantes ou não. Também queria a vacina preventiva, o diagnóstico precoce.
Queria tantas coisas. Mas hoje só queria muito te ajudar. E fazer diferença.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Prá discutir a mesmice

A incrível capacidade humana de criar e transformar é frequentemente confrontada com a doença da mesmice. Por que é que temos todos – ou a grande maioria – de sermos os mesmos, repetindo os mesmos erros, vivendo os mesmos pré-conceitos, perpetuando comportamentos seculares e pensando da mesma forma que nossos antepassados ancestrais. É claro que tudo isso é um exagero superlativo. Não ignoro os fantásticos avanços comportamentais que nos empurraram para a contemporaneidade social do século XXI. Mas algumas idéias, quase dogmas, permanecem encravadas na expectativa que todos temos diante da cronologia de nossas vidas e das fases que devemos viver em todas elas.
Quero pensar um pouco sobre isso e ouvir também. Até porque estou meio que no centro desse furação de expectativas cronológicas. Sim, a linha do tempo me colocou naquele palco onde, ao termos filhos adultos, somos obrigados a pensar em somar à categoria de mãe um novo emblema: o de avó. E ao saberem que tenho um filho de 26 anos e já casado, a pergunta mais comum não é o que para mim é o mais importante. Queria que todos, em nome da gentileza ou da curiosidade, só quisessem saber se ele está feliz. Porque é isso que importa. Mas, de modo geral, a pergunta sempre soma um infalível ingrediente: "Ih...daqui a pouco vai ser vovó"; ou "Já é vovó?"; talvez " Está preparada para ser avó?".

Não...não sei se estou preparada para ser avó. Tem algum curso preparatório? Tenho a obrigação de conter dentre meus múltiplos sentimentos o desejo febril de ser avó? Sinceramente, vim ao mundo sem essa ferramenta. E isso não quer dizer que não queira, que abomine a idéia de sê-lo. Muito pelo contrário. Amo tanto meus filhos que certamente amarei todos os momentos em que eles estiverem felizes. E se ter filhos for para eles o que foi para mim, um momento de escolha e certeza incomparáveis, estarei aí ao lado, curtindo muito a chegada do rebento. Mas não carrego comigo o desejo prévio da perpetuação genealógica. Não acho que tenha chegado a uma fase da vida onde ser avó seja a minha única meta. Sou produtiva e assim ainda me imagino seguir por longo tempo. Portanto, o padrão clássico da avó cuidando dos netos nem mesmo combina comigo. E meus filhos sabem disso.
Tenho amigas casadas que optaram por não ter filhos. E embora tenha sido criada dentro de um ambiente familiar meio que conservador, onde ter filhos era a sequência natural da vida de homens e mulheres, fui também educada para ser independente, dona do meu próprio corpo, incluindo o nariz. E assim, dessa forma autonômica, conheci o mundo, as pessoas e a mim mesmo. Descobri erros e acertos, desenhei erros e acertos e continuo acertando e errando, tudo ao mesmo tempo e agora. E nessa grande sopa, a idéia de não ter filhos é hoje uma escolha que não me incomoda. Entendo de forma tão clara a opção de minhas amigas, ainda que cada uma tenha um caminho diferente para explicar esse não desejo.
Estamos construíndo um novo mundo a cada dia. E ser capaz de romper com a mesmice, com o comodismo do pensamento tacanho que não admite novas vertentes, novas cores, novos gestos é dar passos além. E diga-se: não vai aqui crítica alguma às mulheres que querem, sonham, vibram com a idéia de serem avós. Só não quero ser obrigada a querer ser ou a ter que desejar ser. Meu tempo cronológico está expresso nos meus gestos. E esses serão sempre generosos.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Porque amar dá trabalho

Não sou alguém a quem todos amem ou só teçam elogios. Carrego equívocos milenares, alguns que certamente vivi e repeti também em outras vidas. Sou voluntariosa, personalista, meio rebelde, meio insensata, teimosa e até obsessiva. Mas a minha versão combo dá de brinde alguns ingredientes que até atraem pessoas ao meu mundo. E a esses me dedico. Porque acho que dedicação é fundamental na expressão do amor. E ser dedicado nada tem de subserviência ou submissão. É entrega no limite do que é possível, do que é real porque pode e deve sempre ser transfigurado em gestos. De perdão, compreensão, decepção, frustração.....e não necessariamente nessa ordem.
É que amar dá um trabalho imenso. É preciso querer muito e sempre. Atravessar fortalezas, romper diques, investigar párocos, enfrentar dragões, conquistar a Ásia, a Oceania e mais 24 territórios. Pior mesmo é quando nesse ofício você procura a excelência. E eu, confesso, procuro sim. Quero o ISO-9001. Nem quero pensar em me doar pela metade.Se for pela metade é melhor não ser. Amar é coisa prá se fazer por inteiro. E quanto mais amo mais sei que não existem salvaguardas, áreas de escape ou indulgências. Porque as consequências desse amor e suas dores serão também e sempre intensas. Por isso é preciso querer de verdade o bem que o amor pode nos proporcionar. E engolir em seco, contar até mil, fazer personagens... E cultivar, aguar, replantar cotidianamente. Dá um trabalho imenso. É quase um Moysés abrindo o Mar Vermelho.
E embora sejamos frequentemente preguiçosos, não posso porque não quero permitir que o comodismo retire de mim a incrível capacidade de amar. E que me faça amendrontada diante do que o bem do amor pode me trazer.
Não vou desistir nunca de cultivar os meus amores. E de tratá-los bem, ainda que escorregando nos equívocos ancestrais que teimam em colocar-nos em lados opostos. Quero a dedicação messiânica e consciente porque ela - tenho certeza disso - é a minha melhor ferramenta.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Se

Se te faço luz, tenho a presença,
se te peço a mão, busco esperança,
se te olho os olhos, conheço a fé,
se te chamo em voz, quero vida,
se te lembro histórias, perco o medo
mas se te digo vem, transformo o mundo.


É essa certeza avassaladora que me move. Sempre.

terça-feira, 17 de junho de 2008

De volta à inspiração

Depois de alguns dias de alma nublada, me sinto novamente inspirada. Faz frio no Rio de Janeiro. O céu recoberto de nuvens. Mas a chuva que insistia em se manter sob meus olhos, desfez-se. Estou confiante e, mais uma vez, crédula. Em mim e nas inúmeras possibilidades que circundam o meu entorno. Essa é, sem dúvida, a melhor sensação. A de que posso, que quero, que vou buscar e tornar real.
Estou pensando em perdão, compreensão, afeto equilibradamente sereno. Sentimentos que me desadrenalizam, mas que gosto e preciso viver quando volto a subir a escada. É curiosa essa sensação do recomeçar. Não parei, não fechei os olhos, nem revi conceitos. Simplesmente adormeci minha energia. E hoje tive a nítida sensação de que voltei a despertar. Sem sustos, sem açodamento, mas sempre esperançosa. A literatura da auto-ajuda me incomoda, mas hoje me sinto dentro de um desses manuais do bom viver. Quase uma Revista Nova com suas infalíveis "dez lições para encontrar o homem de sua vida". Meio bobo, meio vazio, sem muita explicação empírica. Só sentimento, só sensação.
Sei que poderia falar horas sobre isso. Ou escrever, despreocupadamente. De um modo geral não faço rascunhos. Deixo sempre que a emoção flua. Quase sopro, meio brisa, lufada mediúnica que toma posse de mim. Quero muito o sorriso inteiro de meus filhos. A presença do amor, expressa em todas as suas formas e linguagens. Quero, só quero. E querer é sempre expor-se na vitrine. Que todos visitem a loja e peçam doses generosas do que tenho por lá.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Um dia para chorar

Hoje queria muito chorar,
mas nem sei como fazê-lo.
Acho que desaprendi
ou perdi na esquina da alma segura.
Mas que alma segura
o que nem se pode conter?
A seca das lágrimas desidratou meu corpo
e trouxe sede.
Quero chorar porque estou triste,
porque preciso da benção desse molhar
que irriga minha´alma
e filtra a dor.
Quero chorar porque tenho vontade,
porque choro por dentro
e preciso vazar o que me afoga.


Esse poema, quase prosa, é motivado pela perda trágica de um companheiro de trabalho. Hoje, ao ver tantas pessoas sob lágrimas, pensei o quanto me incomoda não conseguir expressar minha dor além da minha própria dor. Faz tempo que preciso chorar. Mas não quero viver a dor para reaprender a chorar.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Sonho

Eu creio em sonhos e penso mesmo que eles são, não raras vezes, sinalizações espirituais que não sou capaz de perceber conscientemente. Sei que para muita gente isso pode parecer delírio, mas realmente penso que somos um universo de possibilidades e, dentre elas, estão as que não posso e nem necessariamente quero explicar.
Assim sendo, creio em sonhos premonitórios expressos em situações ou mesmo interpretações do que vivo nesse mundo paralelo. E hoje, especialmente, sonhei com uma imagem que se repete quando sei que coisas boas vão acontecer. Estava num parque, sentada numa espreguiçadeira em frente a um lago. Fazia frio sob o céu em azul. Ao meu lado, ocasionalmente, minha amiga Kátia, doce figura e que, como eu ou mais do que eu, ama viajar e se oferecer o universo das possibilidades. Estávamos, a meu ver - ou talvez porque ame o lugar - no Jardin des Tulheries, em Paris. Mas não era o lugar que era importante e sim a sensação de paz, de plenitude, do silêncio quieto que nos fala todas as verdades. Como se naquele momento fôssemos o lastro que permitia o equilíbrio, a verdadeira harmonia entre todos os elementos da cena. Ou do sonho.
Me deu uma sensação de paz tão profunda que acordei com esse espírito. Paciente, revolucionário, crédulo e absolutamente harmônico. Sou melhor quando sou assim, não tenho dúvidas. Me faz bem acreditar que hoje vai ser um dia melhor que ontem, repleto de boas notícias, de amor e compaixão.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Prisão

E ao te ver fez-se o encanto,
misteriosa alquimia
que desafia os sábios
e entorpece a razão.

Mas que razão há nesse canto?
Se só a infinita harmonia
que explica o universo
e decifra meus códigos.

Que expõe descaradamente
o que goteja e escorre.
E não há dique salvador
que possa conter esse mar.

O som da tua alma
cruzou o meu caminho
e eu só estendi a mão
e segurei.

Há prisão mais libertadora?

terça-feira, 3 de junho de 2008

A alma adolescente que ainda mora em mim

Algum resquício da alma da adolescente que fui permanece em mim. Nem toda a maturidade e experiência impedem que, eventualmente, a limitação maniqueísta dos que acham que têm toda a verdade do mundo me tome de assalto. E aí, irrefletidamente, divido o mundo entre os bons e os maus. E, é claro, estou sempre do lado dos bons. E olhe que nem sou tão boazinha assim. Mas sempre acho que estou repleta das razões que justificam minhas atitudes. E me enraiveço, tomo-me de um sentimento de indignação como se o mundo em minha volta não conseguisse ver o que, aos meus olhos nublados, parece óbvio: tenho razão, queria um mundo de seguidores a reconhecer em mim a grandeza dos filósofos e a lucidez serena dos monges.
Mas não sou nada disso. E, na verdade, não quero nada disso. Quero o equilíbrio, a serenidade possível, a tranquila observação de que o mundo está muito além da redução maniqueísta que só vê dois caminhos: ou a terra firme ou o precipício.
Quando acerto meu prumo, seguro meu timão e sigo meu caminho, o vejo sob a ótica da reflexão. Destemperos ocasionais, mas sempre mais ou menos dentro da estrada. Hoje quero muito ser capaz do exercício do silêncio. Me expor menos, especialmente na face mais tresloucada. Ficar com uma raiva ensandecida, que só me traz sentimentos de injustiça, me faz só. E sem a companhia do que tenho de mais caro a mim. Eu mesmo.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Falando sobre sexo

Há pouco mais de uma semana escrevi para uma revista da indústria farmacêutica, cliente da empresa onde trabalho, um texto sobre a evolução do comportamento sexual feminino. O cliente produz, obviamente, anticoncepcionais e o texto não poderia fugir desse ícone que é a questão da libertação que mulheres e homens conquistaram a partir do surgimento da pílula e da desvinculação possível entre sexo e procriação.
Algumas das idéias que apresentei no texto gostaria que estivessem por aqui também. E, obviamente, abertas aos comentários de todos.
Somos resultados de uma seqüência ancestral de relacionamentos entre homens e mulheres e que geraram filhos. Portanto, procriar é o fundamento de nossa existência e, assim, nada mais adequado do que o esforço da ciência em pesquisar evolução e sexo. É evidente também que à ciência não poderia faltar a percepção de que se mulheres e homens usam o cérebro para pensar em sexo, as alterações corporais que o resultado dessa atividade podem originar são bem diferentes. Ou seja, mulheres gestam, contribuem para a preservação da espécie, povoam o mundo, mas também gostariam de viver integralmente os prazeres do sexo sem que a procriação viesse junta no mesmo pacote. Esta motivação está na origem das práticas contraceptivas. Porque na maioria das vezes a motivação para o sexo não se faz pela tentativa de procriação.
Quando nos voltamos às teorias iniciais sobre o comportamento sexual dos animais, vemos estudos científicos mostrando que os machos desenvolveram comportamentos sexuais competitivos, lutando entre si ou produzindo ornamentos corporais para ter acesso às fêmeas. Além disso, por causa da facilidade para produção de esperma e a pouca ou nenhuma responsabilidade parental, machos de muitas espécies tinham pouco a perder ao fertilizar muitas fêmeas, tendendo a um comportamento evolutivamente mais promíscuo. Fêmeas, por outro lado, ao invés de esperma, produziam um óvulo único, bem maior e custoso do ponto de vista biológico, passando por todas as dificuldades de uma gravidez e cuidando da cria até que ela tivesse alguma auto-suficiência. Mudamos muito até o dia de hoje? Sem dúvida. Homens e mulheres, em alguns casos por força da lei; em muitos outros por força de um novo modelo de educação e vida em sociedade, criaram compromisso com os filhos gerados através de suas vidas.
Mas vale observar que muitos desses aspectos são uma justificativa plausível para comportamentos que ainda hoje regulam a vida de homens e mulheres. E assim, com tanto investimento por causa da função de gestar, fêmeas de muitas espécies - humanas, inclusive - tendem a ser muito mais seletivas na escolha de seus parceiros e muitas delas preservam um comportamento mais monogâmico.
É claro que esses são estereótipos de machos e fêmeas que, embora nos chamem a atenção, não descrevem a realidade da sociedade moderna. Além disso, tais características não são exclusivas. A agressividade na escolha de parceiros, por exemplo, existe em muitas mulheres e nossos "homens modernos" cuidam muito bem dos filhos, enquanto morrem de medo de "pular a cerca" ou pelo menos serem pegos nessa tarefa.

A disseminação da democracia moderna e as intervenções da tecnologia, como as ferramentas de mídia, resultaram na formação de uma cultura global moderna. O comportamento de "macho dominante" foi a regra durante muitos séculos de nossa história. E embora tal padrão ainda encontre semelhança em certas sociedades ditatoriais atuais, a grande revolução sexual dos últimos trinta anos é exatamente a que constrói um novo perfil de homens e mulheres, ou seja, machos não mais dominantes e mulheres não mais dominadas. E assim, menos comprometidos com um padrão aprisionador de comportamento, e entendendo que se o grande órgão sexual de homens e mulheres é realmente o cérebro, pensar em sexo é pensar em prazer e em formas de torná-lo mais reconfortante e seguro.
A disponibilidade da pílula anticoncepcional nas últimas décadas quebrou o paradigma entre sexo e gravidez, destruindo mitos e crenças sociais existentes por milênios. A existência da pílula contraceptiva fez com que o sexo passasse a ser buscado apenas por prazer, sendo o planejamento dos filhos uma escolha individual para o momento exato. Mulheres podem evitar relacionamentos prolongados pelo tempo que desejarem e enquanto conseguirem atrair parceiros interessantes.
Alguns pesquisadores mostram que esse comportamento gerou a existência de um sistema social relevante, particularmente em grandes cidades, onde pessoas podem "provar antes de comprar" tudo o que quiserem, e assim podem buscar o parceiro mais compatível e avaliar se querem ou não iniciar uma família. Pode parecer um tanto grotesco à primeira vista, mas o que realmente a pílula anticoncepcional ofereceu - e nesse caso, especialmente à mulher - foi a possibilidade de conhecer parceiros, sexualmente inclusive, e sem necessariamente a idéia de cada um fosse um potencial marido. E isso não quer dizer que mulheres, mesmo diante da emancipação social e financeira, não estejam em busca de um relacionamento maduro e comprometido e que disto origine uma relação familiar formal. A grande maioria busca o que é também uma vocação de nossa espécie: homens e mulheres gostam da vida juntos, até porque esse é um modelo ancestral que gostamos de ver repetido. E se procuramos alguém com quem nos identifiquemos social e culturalmente para formamos um novo grupo familiar, não podemos mais prescindir de um novo ingrediente de satisfação e seletividade: a afinidade sexual. Poder testá-la e usá-la como critério também de escolha de parceiros foi certamente a mais importante e revolucionária ferramenta de que homens e mulheres fizeram uso nos últimos anos. Mais ainda as mulheres, para quem a pílula é instrumento de libertação.

Assim, o comportamento sexual da mulher hoje é nada mais do que a prova de tanto quanto vocacionados para o sexo, homens e mulheres são vocacionados para a evolução. Não reconhecer isso é fechar os olhos para as nossas múltiplas possibilidades. No sexo, inclusive.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um vento

O vento soprou meu rosto
e por um instante senti teu cheiro.
Lascívia sensação que te traz de volta
e mais uma vez me cobre como onda,
inunda minha´alma,
descarrila meu percurso.

E parecia tão real, tão perto,
até peguei tua mão e respirei teu hálito.
Memória de um gosto que não consigo desgostar,
que meu corpo não digere,
minha pele não esquece,
queima meu sono insone.

Lembrei teu jeito, teus sons,
meus sinais marcados a fogo na sua história.
Reconheci teu olhar, percebi os sinais,
impressões expressas que perdi dentro de mim
e sei como encontrar.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Falando de medos

Não sou uma pessoa medrosa, mas é evidente que tenho medos. De barata, então....desesperadamente. Medo de que aconteça algo ruim com meus filhos, de que minha mãe me falte, de perder quem amo. É claro que temo por minha saúde, segurança, patrimônio....mas além das questões da alma e do coração, só a barata me desestabiliza. Por isso tenho uma grande dificuldade em entender o pavor com que algumas pessoas interpretam situações ou acontecimentos em suas vidas.
Minha filha adquiriu um medo enorme de viajar de avião e isso tem atrapalhado em muito sua vida, profissional inclusive. E é algo tão intenso que não posso me abster de pensar sobre o tema. Ela sofre; eu sofro também. Tento argumentar com todas as questões e explicações sobre a plausibilidade de eventos relacionados à aviação, dados estatísticos, interpretações cartesianas, mas nada parece ser maior do que o pavor que a impede de compreender a razão de minhas justificativas. E o contrário é verdadeiro também. A terapia é o caminho para enfrentar esse monstro tortuoso e descobrir formas de engavetar ou administrar os temores que nos tomam de assalto.
Mas de onde essas coisas vêm? Como explicar concretamente uma sensação aterrorizante que não se fundamenta em algo palpável. Sim, acidentes aéreos costumam ser fatais. Mas fatal é a epidemia da dengue, são as balas traçantes que iluminam as noites cariocas, é o trânsito caótico diante da irresponsabilidade dos humanos. E tem os que sofrem do pavor de falar em público, dos ambientes cheios, de mergulhar no mar, de entrar em túneis, de montanha-russa, de qualquer altura, de ser observado, até de amar e não ser amado.
Quando nosso olhar é só de voyeur, de quem acompanha e sofre junto mas não tem dor é muito difícil. E quero ser condescendente, ajudar, dar colo e compreensão. Às vezes nem sei como.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Prá não levar a sério

Hoje acordei pensando em escrever alguma coisa no blog sobre a idéia de levar-se ou não a sério. Ou pelo menos muito à sério. Conversei sobre isso ontem. Na verdade, disse para uma amiga muito querida o quanto sabia ter sido ela um instrumento importante nessa minha grande e recente conquista pessoal: estou aprendendo a não levar tudo tão a sério.
Sou capaz até de rir das minhas mais patéticas fraquezas. Desapropriei o terreno seguro das minhas verdades intocáveis. E isso tem me feito menos comprometida com uma rigidez aprisionadora.
Não posso dizer que ousei tanto. Ainda carrego o peso daquele desenho de alguém a quem não é dado o direito de falhar. Mas tenho exposto tanto minhas dores, dúvidas e de uma forma tão mais bem humorada que - acho - deixei de lado o ranço das atitudes sérias. Porque séria, nesse caso, não é estar comprometida com algo que se acredita certo, mas sim não compreender que fazer de forma mais relaxada, menos dogmática, mais liberta de pré-conceitos é muito melhor.
Desencanei de uma série de coisas. E até acho chato gente que leva tudo muito a sério. Valorizo quem tem um olhar mais bem humorado, às vezes até docemente irresponsável. Adoro as incoerências e as surpresas que elas me trazem. É inspirador conviver com cabeças tresloucadas. Do bem, é claro, mas tresloucadas. Gente que pira, que chora, que ri, que vislumbra e admira. Tudo sem medida certa porque prá essa receita dar certo, só com generosas colheradas de desatino.
Não...não desatinei. Mas as bobagens hoje me são bem-vindas. Porque fazem parte de mim, um ser errático a garimpar tesouros onde brotam pedras e flores. Não necessariamente nessa ordem.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Para os amigos de verdade

Outro dia, lendo um dos muitos blogs que visito, nem sempre diariamente, mas em freqüência prá lá de intensa, o tema falava de amigos. E li porque gosto do estilo de escrever da dona do blog, porque me sinto curiosamente injusta se começo a ler e não dou a chance ao autor de me convencer de fazê-lo até o final, e basicamente porque esse é um tema que me atrai.
A idéia do grande amor expresso nas grandes amizades me seduz completamente. Acho que um amor descompromissado das pequenas ranhuras – e dos infinitos prazeres – da comunhão sexual pode ser tão intenso quanto qualquer ensandecida paixão. E tal qual a ebulição incontrolável que nos invade quando nos apaixonamos, perceber em alguém a infinita sintonia que explica, nem sei se mediunicamente, o amor por um amigo é sempre deliciosa experiência.
Tenho grandes amigos, mais ou menos recentes, mais ou menos freqüentes, mais ou menos próximos. Acho até que tenho histórias cármicas com alguns, para quem sequer me revelo porque já me vi em seus olhos e isso será sempre a mais profunda revelação.
Tenho filhos e para quem não os têm é difícil compreender a imensidão de um amor incondicional. Mas que também é responsável, formador, parametrizador. Portanto, comprometido. Embora único.
O amor amigo é sem conta conjunta, não emite fatura, não incorpora a fraternidade das relações longas. É só a certeza de um ouvir sem análise ou pelo menos sem julgamento. Talvez só argumentação, reflexão, choro e riso em generosas doses. É o olhar que observa e pondera; que sugere e aponta; que diz da forma mais condescendente e protetora. Porque não é preciso tocar na parte frágil; não é preciso incomodar. Só ficar por perto, só fazer-se perto.
Amigo mesmo é assim. E muitos dos meus vão se reconhecer nessas linhas blogueiras.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Das formas de amar

Daquilo que sei por vezes esqueço
e me perco e confundo entre ondas e marés.
Mas do amor sou escrava
porque do bem que me traz jamais me liberto.

Solto as amarras e desprendo o balão,
não quero vôo perfeito nem mesmo sereno.
Mas do amor sou escrava
e me encontro e revelo em cada susto ou sorriso.

E durmo o sono fértil da imaginação,
fantasio o romance mais tórrido e sufocante.
Mas do amor sou escrava
em todo o tempo que me é dado sonhar.

Vesti minha roupa de festa, pintei meus olhos de preto
e nem lembrei de dizer.
Mas do amor fui escrava.

Agora só falta você.