segunda-feira, 30 de junho de 2008
Prá discutir a mesmice
Quero pensar um pouco sobre isso e ouvir também. Até porque estou meio que no centro desse furação de expectativas cronológicas. Sim, a linha do tempo me colocou naquele palco onde, ao termos filhos adultos, somos obrigados a pensar em somar à categoria de mãe um novo emblema: o de avó. E ao saberem que tenho um filho de 26 anos e já casado, a pergunta mais comum não é o que para mim é o mais importante. Queria que todos, em nome da gentileza ou da curiosidade, só quisessem saber se ele está feliz. Porque é isso que importa. Mas, de modo geral, a pergunta sempre soma um infalível ingrediente: "Ih...daqui a pouco vai ser vovó"; ou "Já é vovó?"; talvez " Está preparada para ser avó?".
Não...não sei se estou preparada para ser avó. Tem algum curso preparatório? Tenho a obrigação de conter dentre meus múltiplos sentimentos o desejo febril de ser avó? Sinceramente, vim ao mundo sem essa ferramenta. E isso não quer dizer que não queira, que abomine a idéia de sê-lo. Muito pelo contrário. Amo tanto meus filhos que certamente amarei todos os momentos em que eles estiverem felizes. E se ter filhos for para eles o que foi para mim, um momento de escolha e certeza incomparáveis, estarei aí ao lado, curtindo muito a chegada do rebento. Mas não carrego comigo o desejo prévio da perpetuação genealógica. Não acho que tenha chegado a uma fase da vida onde ser avó seja a minha única meta. Sou produtiva e assim ainda me imagino seguir por longo tempo. Portanto, o padrão clássico da avó cuidando dos netos nem mesmo combina comigo. E meus filhos sabem disso.
Tenho amigas casadas que optaram por não ter filhos. E embora tenha sido criada dentro de um ambiente familiar meio que conservador, onde ter filhos era a sequência natural da vida de homens e mulheres, fui também educada para ser independente, dona do meu próprio corpo, incluindo o nariz. E assim, dessa forma autonômica, conheci o mundo, as pessoas e a mim mesmo. Descobri erros e acertos, desenhei erros e acertos e continuo acertando e errando, tudo ao mesmo tempo e agora. E nessa grande sopa, a idéia de não ter filhos é hoje uma escolha que não me incomoda. Entendo de forma tão clara a opção de minhas amigas, ainda que cada uma tenha um caminho diferente para explicar esse não desejo.
Estamos construíndo um novo mundo a cada dia. E ser capaz de romper com a mesmice, com o comodismo do pensamento tacanho que não admite novas vertentes, novas cores, novos gestos é dar passos além. E diga-se: não vai aqui crítica alguma às mulheres que querem, sonham, vibram com a idéia de serem avós. Só não quero ser obrigada a querer ser ou a ter que desejar ser. Meu tempo cronológico está expresso nos meus gestos. E esses serão sempre generosos.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Porque amar dá trabalho
É que amar dá um trabalho imenso. É preciso querer muito e sempre. Atravessar fortalezas, romper diques, investigar párocos, enfrentar dragões, conquistar a Ásia, a Oceania e mais 24 territórios. Pior mesmo é quando nesse ofício você procura a excelência. E eu, confesso, procuro sim. Quero o ISO-9001. Nem quero pensar em me doar pela metade.Se for pela metade é melhor não ser. Amar é coisa prá se fazer por inteiro. E quanto mais amo mais sei que não existem salvaguardas, áreas de escape ou indulgências. Porque as consequências desse amor e suas dores serão também e sempre intensas. Por isso é preciso querer de verdade o bem que o amor pode nos proporcionar. E engolir em seco, contar até mil, fazer personagens... E cultivar, aguar, replantar cotidianamente. Dá um trabalho imenso. É quase um Moysés abrindo o Mar Vermelho.
E embora sejamos frequentemente preguiçosos, não posso porque não quero permitir que o comodismo retire de mim a incrível capacidade de amar. E que me faça amendrontada diante do que o bem do amor pode me trazer.
Não vou desistir nunca de cultivar os meus amores. E de tratá-los bem, ainda que escorregando nos equívocos ancestrais que teimam em colocar-nos em lados opostos. Quero a dedicação messiânica e consciente porque ela - tenho certeza disso - é a minha melhor ferramenta.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Se
se te peço a mão, busco esperança,
se te olho os olhos, conheço a fé,
se te chamo em voz, quero vida,
se te lembro histórias, perco o medo
mas se te digo vem, transformo o mundo.
É essa certeza avassaladora que me move. Sempre.
terça-feira, 17 de junho de 2008
De volta à inspiração
Estou pensando em perdão, compreensão, afeto equilibradamente sereno. Sentimentos que me desadrenalizam, mas que gosto e preciso viver quando volto a subir a escada. É curiosa essa sensação do recomeçar. Não parei, não fechei os olhos, nem revi conceitos. Simplesmente adormeci minha energia. E hoje tive a nítida sensação de que voltei a despertar. Sem sustos, sem açodamento, mas sempre esperançosa. A literatura da auto-ajuda me incomoda, mas hoje me sinto dentro de um desses manuais do bom viver. Quase uma Revista Nova com suas infalíveis "dez lições para encontrar o homem de sua vida". Meio bobo, meio vazio, sem muita explicação empírica. Só sentimento, só sensação.
Sei que poderia falar horas sobre isso. Ou escrever, despreocupadamente. De um modo geral não faço rascunhos. Deixo sempre que a emoção flua. Quase sopro, meio brisa, lufada mediúnica que toma posse de mim. Quero muito o sorriso inteiro de meus filhos. A presença do amor, expressa em todas as suas formas e linguagens. Quero, só quero. E querer é sempre expor-se na vitrine. Que todos visitem a loja e peçam doses generosas do que tenho por lá.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Um dia para chorar
mas nem sei como fazê-lo.
Acho que desaprendi
ou perdi na esquina da alma segura.
Mas que alma segura
o que nem se pode conter?
A seca das lágrimas desidratou meu corpo
e trouxe sede.
Quero chorar porque estou triste,
porque preciso da benção desse molhar
que irriga minha´alma
e filtra a dor.
Quero chorar porque tenho vontade,
porque choro por dentro
e preciso vazar o que me afoga.
Esse poema, quase prosa, é motivado pela perda trágica de um companheiro de trabalho. Hoje, ao ver tantas pessoas sob lágrimas, pensei o quanto me incomoda não conseguir expressar minha dor além da minha própria dor. Faz tempo que preciso chorar. Mas não quero viver a dor para reaprender a chorar.
terça-feira, 10 de junho de 2008
Sonho
Assim sendo, creio em sonhos premonitórios expressos em situações ou mesmo interpretações do que vivo nesse mundo paralelo. E hoje, especialmente, sonhei com uma imagem que se repete quando sei que coisas boas vão acontecer. Estava num parque, sentada numa espreguiçadeira em frente a um lago. Fazia frio sob o céu em azul. Ao meu lado, ocasionalmente, minha amiga Kátia, doce figura e que, como eu ou mais do que eu, ama viajar e se oferecer o universo das possibilidades. Estávamos, a meu ver - ou talvez porque ame o lugar - no Jardin des Tulheries, em Paris. Mas não era o lugar que era importante e sim a sensação de paz, de plenitude, do silêncio quieto que nos fala todas as verdades. Como se naquele momento fôssemos o lastro que permitia o equilíbrio, a verdadeira harmonia entre todos os elementos da cena. Ou do sonho.
Me deu uma sensação de paz tão profunda que acordei com esse espírito. Paciente, revolucionário, crédulo e absolutamente harmônico. Sou melhor quando sou assim, não tenho dúvidas. Me faz bem acreditar que hoje vai ser um dia melhor que ontem, repleto de boas notícias, de amor e compaixão.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Prisão
misteriosa alquimia
que desafia os sábios
e entorpece a razão.
Mas que razão há nesse canto?
Se só a infinita harmonia
que explica o universo
e decifra meus códigos.
Que expõe descaradamente
o que goteja e escorre.
E não há dique salvador
que possa conter esse mar.
O som da tua alma
cruzou o meu caminho
e eu só estendi a mão
e segurei.
Há prisão mais libertadora?
terça-feira, 3 de junho de 2008
A alma adolescente que ainda mora em mim
Mas não sou nada disso. E, na verdade, não quero nada disso. Quero o equilíbrio, a serenidade possível, a tranquila observação de que o mundo está muito além da redução maniqueísta que só vê dois caminhos: ou a terra firme ou o precipício.
Quando acerto meu prumo, seguro meu timão e sigo meu caminho, o vejo sob a ótica da reflexão. Destemperos ocasionais, mas sempre mais ou menos dentro da estrada. Hoje quero muito ser capaz do exercício do silêncio. Me expor menos, especialmente na face mais tresloucada. Ficar com uma raiva ensandecida, que só me traz sentimentos de injustiça, me faz só. E sem a companhia do que tenho de mais caro a mim. Eu mesmo.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Falando sobre sexo
Algumas das idéias que apresentei no texto gostaria que estivessem por aqui também. E, obviamente, abertas aos comentários de todos.
Somos resultados de uma seqüência ancestral de relacionamentos entre homens e mulheres e que geraram filhos. Portanto, procriar é o fundamento de nossa existência e, assim, nada mais adequado do que o esforço da ciência em pesquisar evolução e sexo. É evidente também que à ciência não poderia faltar a percepção de que se mulheres e homens usam o cérebro para pensar em sexo, as alterações corporais que o resultado dessa atividade podem originar são bem diferentes. Ou seja, mulheres gestam, contribuem para a preservação da espécie, povoam o mundo, mas também gostariam de viver integralmente os prazeres do sexo sem que a procriação viesse junta no mesmo pacote. Esta motivação está na origem das práticas contraceptivas. Porque na maioria das vezes a motivação para o sexo não se faz pela tentativa de procriação.
Quando nos voltamos às teorias iniciais sobre o comportamento sexual dos animais, vemos estudos científicos mostrando que os machos desenvolveram comportamentos sexuais competitivos, lutando entre si ou produzindo ornamentos corporais para ter acesso às fêmeas. Além disso, por causa da facilidade para produção de esperma e a pouca ou nenhuma responsabilidade parental, machos de muitas espécies tinham pouco a perder ao fertilizar muitas fêmeas, tendendo a um comportamento evolutivamente mais promíscuo. Fêmeas, por outro lado, ao invés de esperma, produziam um óvulo único, bem maior e custoso do ponto de vista biológico, passando por todas as dificuldades de uma gravidez e cuidando da cria até que ela tivesse alguma auto-suficiência. Mudamos muito até o dia de hoje? Sem dúvida. Homens e mulheres, em alguns casos por força da lei; em muitos outros por força de um novo modelo de educação e vida em sociedade, criaram compromisso com os filhos gerados através de suas vidas.
Mas vale observar que muitos desses aspectos são uma justificativa plausível para comportamentos que ainda hoje regulam a vida de homens e mulheres. E assim, com tanto investimento por causa da função de gestar, fêmeas de muitas espécies - humanas, inclusive - tendem a ser muito mais seletivas na escolha de seus parceiros e muitas delas preservam um comportamento mais monogâmico.
É claro que esses são estereótipos de machos e fêmeas que, embora nos chamem a atenção, não descrevem a realidade da sociedade moderna. Além disso, tais características não são exclusivas. A agressividade na escolha de parceiros, por exemplo, existe em muitas mulheres e nossos "homens modernos" cuidam muito bem dos filhos, enquanto morrem de medo de "pular a cerca" ou pelo menos serem pegos nessa tarefa.
A disseminação da democracia moderna e as intervenções da tecnologia, como as ferramentas de mídia, resultaram na formação de uma cultura global moderna. O comportamento de "macho dominante" foi a regra durante muitos séculos de nossa história. E embora tal padrão ainda encontre semelhança em certas sociedades ditatoriais atuais, a grande revolução sexual dos últimos trinta anos é exatamente a que constrói um novo perfil de homens e mulheres, ou seja, machos não mais dominantes e mulheres não mais dominadas. E assim, menos comprometidos com um padrão aprisionador de comportamento, e entendendo que se o grande órgão sexual de homens e mulheres é realmente o cérebro, pensar em sexo é pensar em prazer e em formas de torná-lo mais reconfortante e seguro.
A disponibilidade da pílula anticoncepcional nas últimas décadas quebrou o paradigma entre sexo e gravidez, destruindo mitos e crenças sociais existentes por milênios. A existência da pílula contraceptiva fez com que o sexo passasse a ser buscado apenas por prazer, sendo o planejamento dos filhos uma escolha individual para o momento exato. Mulheres podem evitar relacionamentos prolongados pelo tempo que desejarem e enquanto conseguirem atrair parceiros interessantes.
Alguns pesquisadores mostram que esse comportamento gerou a existência de um sistema social relevante, particularmente em grandes cidades, onde pessoas podem "provar antes de comprar" tudo o que quiserem, e assim podem buscar o parceiro mais compatível e avaliar se querem ou não iniciar uma família. Pode parecer um tanto grotesco à primeira vista, mas o que realmente a pílula anticoncepcional ofereceu - e nesse caso, especialmente à mulher - foi a possibilidade de conhecer parceiros, sexualmente inclusive, e sem necessariamente a idéia de cada um fosse um potencial marido. E isso não quer dizer que mulheres, mesmo diante da emancipação social e financeira, não estejam em busca de um relacionamento maduro e comprometido e que disto origine uma relação familiar formal. A grande maioria busca o que é também uma vocação de nossa espécie: homens e mulheres gostam da vida juntos, até porque esse é um modelo ancestral que gostamos de ver repetido. E se procuramos alguém com quem nos identifiquemos social e culturalmente para formamos um novo grupo familiar, não podemos mais prescindir de um novo ingrediente de satisfação e seletividade: a afinidade sexual. Poder testá-la e usá-la como critério também de escolha de parceiros foi certamente a mais importante e revolucionária ferramenta de que homens e mulheres fizeram uso nos últimos anos. Mais ainda as mulheres, para quem a pílula é instrumento de libertação.
Assim, o comportamento sexual da mulher hoje é nada mais do que a prova de tanto quanto vocacionados para o sexo, homens e mulheres são vocacionados para a evolução. Não reconhecer isso é fechar os olhos para as nossas múltiplas possibilidades. No sexo, inclusive.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Um vento
e por um instante senti teu cheiro.
Lascívia sensação que te traz de volta
e mais uma vez me cobre como onda,
inunda minha´alma,
descarrila meu percurso.
E parecia tão real, tão perto,
até peguei tua mão e respirei teu hálito.
Memória de um gosto que não consigo desgostar,
que meu corpo não digere,
minha pele não esquece,
queima meu sono insone.
Lembrei teu jeito, teus sons,
meus sinais marcados a fogo na sua história.
Reconheci teu olhar, percebi os sinais,
impressões expressas que perdi dentro de mim
e sei como encontrar.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Falando de medos
Minha filha adquiriu um medo enorme de viajar de avião e isso tem atrapalhado em muito sua vida, profissional inclusive. E é algo tão intenso que não posso me abster de pensar sobre o tema. Ela sofre; eu sofro também. Tento argumentar com todas as questões e explicações sobre a plausibilidade de eventos relacionados à aviação, dados estatísticos, interpretações cartesianas, mas nada parece ser maior do que o pavor que a impede de compreender a razão de minhas justificativas. E o contrário é verdadeiro também. A terapia é o caminho para enfrentar esse monstro tortuoso e descobrir formas de engavetar ou administrar os temores que nos tomam de assalto.
Mas de onde essas coisas vêm? Como explicar concretamente uma sensação aterrorizante que não se fundamenta em algo palpável. Sim, acidentes aéreos costumam ser fatais. Mas fatal é a epidemia da dengue, são as balas traçantes que iluminam as noites cariocas, é o trânsito caótico diante da irresponsabilidade dos humanos. E tem os que sofrem do pavor de falar em público, dos ambientes cheios, de mergulhar no mar, de entrar em túneis, de montanha-russa, de qualquer altura, de ser observado, até de amar e não ser amado.
Quando nosso olhar é só de voyeur, de quem acompanha e sofre junto mas não tem dor é muito difícil. E quero ser condescendente, ajudar, dar colo e compreensão. Às vezes nem sei como.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Prá não levar a sério
Sou capaz até de rir das minhas mais patéticas fraquezas. Desapropriei o terreno seguro das minhas verdades intocáveis. E isso tem me feito menos comprometida com uma rigidez aprisionadora.
Não posso dizer que ousei tanto. Ainda carrego o peso daquele desenho de alguém a quem não é dado o direito de falhar. Mas tenho exposto tanto minhas dores, dúvidas e de uma forma tão mais bem humorada que - acho - deixei de lado o ranço das atitudes sérias. Porque séria, nesse caso, não é estar comprometida com algo que se acredita certo, mas sim não compreender que fazer de forma mais relaxada, menos dogmática, mais liberta de pré-conceitos é muito melhor.
Desencanei de uma série de coisas. E até acho chato gente que leva tudo muito a sério. Valorizo quem tem um olhar mais bem humorado, às vezes até docemente irresponsável. Adoro as incoerências e as surpresas que elas me trazem. É inspirador conviver com cabeças tresloucadas. Do bem, é claro, mas tresloucadas. Gente que pira, que chora, que ri, que vislumbra e admira. Tudo sem medida certa porque prá essa receita dar certo, só com generosas colheradas de desatino.
Não...não desatinei. Mas as bobagens hoje me são bem-vindas. Porque fazem parte de mim, um ser errático a garimpar tesouros onde brotam pedras e flores. Não necessariamente nessa ordem.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Para os amigos de verdade
A idéia do grande amor expresso nas grandes amizades me seduz completamente. Acho que um amor descompromissado das pequenas ranhuras – e dos infinitos prazeres – da comunhão sexual pode ser tão intenso quanto qualquer ensandecida paixão. E tal qual a ebulição incontrolável que nos invade quando nos apaixonamos, perceber em alguém a infinita sintonia que explica, nem sei se mediunicamente, o amor por um amigo é sempre deliciosa experiência.
Tenho grandes amigos, mais ou menos recentes, mais ou menos freqüentes, mais ou menos próximos. Acho até que tenho histórias cármicas com alguns, para quem sequer me revelo porque já me vi em seus olhos e isso será sempre a mais profunda revelação.
Tenho filhos e para quem não os têm é difícil compreender a imensidão de um amor incondicional. Mas que também é responsável, formador, parametrizador. Portanto, comprometido. Embora único.
O amor amigo é sem conta conjunta, não emite fatura, não incorpora a fraternidade das relações longas. É só a certeza de um ouvir sem análise ou pelo menos sem julgamento. Talvez só argumentação, reflexão, choro e riso em generosas doses. É o olhar que observa e pondera; que sugere e aponta; que diz da forma mais condescendente e protetora. Porque não é preciso tocar na parte frágil; não é preciso incomodar. Só ficar por perto, só fazer-se perto.
Amigo mesmo é assim. E muitos dos meus vão se reconhecer nessas linhas blogueiras.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Das formas de amar
e me perco e confundo entre ondas e marés.
Mas do amor sou escrava
porque do bem que me traz jamais me liberto.
Solto as amarras e desprendo o balão,
não quero vôo perfeito nem mesmo sereno.
Mas do amor sou escrava
e me encontro e revelo em cada susto ou sorriso.
E durmo o sono fértil da imaginação,
fantasio o romance mais tórrido e sufocante.
Mas do amor sou escrava
em todo o tempo que me é dado sonhar.
Vesti minha roupa de festa, pintei meus olhos de preto
e nem lembrei de dizer.
Mas do amor fui escrava.
Agora só falta você.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Prá mudar o mundo
Ideologias à parte, acho que somos agentes de transformação e que não recebemos a benção de um cérebro tão sofisticado apenas para andar, falar, interagir, envelhecer e morrer. Quero mais! Muito mais! E na parte que me cabe, não posso prescindir da força inequívoca de meus atos e palavras - e não só os meus, mas o de todos - no objetivo de fazê-los instrumentos de interferência e argumentação.
Acho que posso mudar cabeças tacanhas, fazendo-as apenas observar além dos antolhos que por vezes colocamos em nós mesmos. Quero romper com práticas que minimalizam a nossa capacidade de raciocinar, impondo modelos repetidos e que, de maneira geral, sempre nos frustram. Busco e distribuo palavras de afeto - às vezes nem tão afetuosas assim - porque fazer alguém confiante é o primeiro passo para fazê-lo acreditar que sonhar é mais do que dormir e metaforizar no subconsciente. Não raras vezes estou na contramão da história, batendo de frente com quem alimenta o imobilismo, aprisionado aos grilhões de uma vida metodicamente ditatorial.
É claro que muitas vezes também não estou fazendo nada disso e preciso me despertar para voltar a acreditar que posso mudar o mundo, que sou responsável pelo o que me incomoda e que para desestabilizar as zonas de conforto é necessário enfrentar os recuos que o medo da mudança nos impõe.
Não quero desistir disso, de acreditar nisso. Não quero me render ao imobilismo. Não quero ficar somente pragmática. Porque sem emoção não há como mudar o mundo. Somos cavaleiros errantes a crer em moinhos. E nem acho tudo isso um delírio. Não posso passar essa experiência de vida sem usar as mil e uma utilidades de meu cinto de Batman.
Se isso tem ônus? Muitos. Às vezes, quase impagáveis. Mas já faz tempo que escolhi não esmorecer. Quando acho que não vou agüentar, fecho a porta e choro. E amargo o luto. Mas no dia seguinte volto à normalidade. O que não quer dizer que tudo isso seja o normal. Nem sei se é. Mas quando ainda estudante universitária aprendi a frase que guia a minha vida: quem não atua, compactua.
Dá prá perceber que gosto da adrenalina, não?
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Febre medieval da execração
Sou jornalista e vivo da indagação e da informação. Como leitora quero conhecer os fatos e suas repercussões. Como redatora, quero apresentar os fatos e até argumentar suas intercorrências. Mas não tenho a febre medieval dos que transformam pessoas em condenados à execração pública. Abomino a idéia da utilização de um veículo poderoso de informação, seja a televisão, o jornal impresso ou a internet para esmiuçar a vida de alguém, não mais importando o fato jornalístico e sim a idéia de que a humilhação, a exposição de alguém ao ridículo é a base da minha profissão.
Não gosto de intromissão na vida alheia. Nem mesmo na de meus filhos. Posso ter - e é óbvio que tenho - curiosidade. E que até entro em sites para olhar fotos de festas de "celebridades". Mas até aí querer, tal qual um urubu carniceiro e famélico, conhecer todos os aspectos que submetem as pessoas ao escárnio....tô fora! Isso vale para essa super mega exposição dos temas que nos perseguem como Ronaldo e travestis, Isabela e seus partners, os porres de Amy Winehouse e tantos outros.
É só um desafabo. Aberto, obviamente, às opiniões contrárias.
domingo, 4 de maio de 2008
Mergulho
Alertas vibrantes de mil decibéis, ensurdecendo minh´alma e me contando mentiras.
Diziam do risco do passo além, queimavam meus pés, crucificavam meu corpo à cruz do arrependimento.
Eram monstros assustadores a lembrar do preço, do ônus, do risco da paixão que turva a lucidez e suicida a razão.
Milhares de gnomos fabulescos a contar de dores, tropeços, trevas tsunâmicas.
Pensei tanto. Segundos intermináveis. Uma travessia desértica em meio às tempestades que inundam a caixa mágica dos sonhos e quebram a métrica da esperança.
Nem sei como sobrevivi. Mas o fiz, tal qual guerreiro tuaregue. E mergulhei.
Estou em pleno vôo.....ao sabor do vento que me carrega para um itinerário que escolhi...mas que desconheço....e nem sei se há pouso certo.
Mas fui tão feliz quando saltei.
Nem penso mais na chegada. Ou minto. É claro que a quero tão generosa e avassaladora. Mas o mergulho será sempre inesquecível.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Papo sem começo e sem fim
Mesmo quando leve e desencanada, meu envolvimento emocional se expressa nos pequenos sinais, no passo que nunca é fruto do acaso, embora o possa ser da razão. Discuto tudo sempre com torpor, embora calma, muitas vezes até irônicamente divertida. Confesso que faço assim até para não parecer uma doida desequilibrada. Embora até eventualmente o pareça, pelo menos aos olhares de alguns.
Isso é coisa de mulher? Será? Somos todas capricornianas eletrificadas? Não...sei que não. Leio blogs de gente de todo o tipo, e alma, e jeito que pensa igual. Está certo....defendo idéias e acho que vou mudar o mundo. Sempre penso que tenho argumentos tão ricos que sou capaz de fazer alguém pensar, embora isso possa definitivamente dar em nada. Mas tenho uma auto-confiança grandiosa. E sem interpretações metafóricas, acho realmente que posso porque quero e se meu querer não atropela ninguém, tenho direito de fazê-lo.
Isso tudo foi só para dizer que tenho me exposto demais. Não aqui, nesse democrático espaço, onde sou como sou. Ou até não sou sempre. Ou quem sabe muito de vez em quando. Mas alguma coisa sempre vai sobrar dessa alma quase vulcânica, de erupções instantâneas, eventualmente computadorizadas.
Mas tenho revelado fraquezas. Quanto mais escrevo aqui, mais me revelo. E ao me revelar, pego o gosto pela coisa. Estou especialmente sensível, do tipo que se fragiliza - embora nem sempre deixe transparecer - por acontecimentos, ou palavras, ou olhares tão desimportantes. Às vezes nem me reconheço. Ou só me surpreenda.
Será que precisei passar tantos anos para conhecer, pelo menos mais intimamente, essa criatura que habita em mim?
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Quero um dia
Preciso desesperadamente de um dia ensandecido que me permita a fantasia de alguém que posso ser sem consequências. Porque até aceito o ônus de decisões mal tomadas, de escolhas equivocadas, de caminhos tortos na direção do muro. As consequências, o dia seguinte, o olhar enviezado, o ter que explicar, justificar e defender é que me cansam. Ou me amedrontam.
Quero um dia sem convenções, sem preconceitos, sem dogmas ou manuais de sobrevivência. Onde possa me permitir os instintos em sua forma mais pura e certamente menos palatável. Fisiologicamente incontroláveis.
Quero um dia sem roteiro, sem compromisso, inteiramente disponível e hedonista. Um dia encantado, completamente nirvana, verdadeiro xanadu. Onde sonhos sejam sugestões bem aceitas. Somente os bons sonhos.
Quero um dia de amor. Sob todas as formas, cores, sabores. De prazer e sem aventura. Mas sem medo também. Sem montanha-russa ou bumg jump. Só desavergonhadamente à vontade. Um dia de sol, de mar, de corpos e areia.
Quero um dia sem depois. Só quem sabe, só talvez. Um dia sem certezas aprisionadoras, sem promessas definitivamente não cumpríveis. Um dia além. Nunca mas nem entretanto. Um dia para nem mesmo lembrar. Só viver.
sábado, 19 de abril de 2008
O beijo
E desde então carrego comigo o novo sinal.
A ele recorro todas as vezes que penso lembrar,
que lembro pensar,
que quero sorrir e aquecer minh´alma com a ebulição daquela boca.
Fui abduzida, perdi o prumo, larguei o timão.
Voei sem autonomia,
nem sei pilotar.
Mas o beijo marcou minha pele,
corrompeu o tempo,
deixou pegadas.
Que delirantemente sigo...
e sigo...
nem sei se quero encontrar.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
As marcas que carregamos
Li um livro recentemente que fala sobre o tema. É Marcas de Nascença, de Nancy Huston, leitura visceral em alguns momentos. Tantas vezes dolorosa; outras reconfortante. Tenho pensado o quanto tudo o que fazemos, e pensamos, e até o que construímos através da vida formam uma delirante e irresponsável aventura. E irresponsável aí quer dizer simplesmente "sem limite, sem preparação, verdadeiramente inconsequente". Estamos em estado de dúvida permanente, a brigar com o que achamos que somos, escravizando os desejos aos olhos de um destino que um dia imaginamos traçar, impondo-nos cotidianamente decepções e desvios de rota, tropeçando em experiências frustrantes e seguindo em frente.
Temos filhos e os fazemos novos personagens dessa grande corredeira e sequer sabemos bem de que forma fazer para - lá na frente - não os tatuarmos com todas as dores e ausências e carências que trouxemos de nossos pais. Achamos que sabemos tudo e que o resultado será glorioso. Mas nem sempre dá certo. Ou nunca é assim. Happy-end sem dor, sem marca de nascença, só nas fábulas midiáticas.
Porque somos uma grande sopa psicodélica desequilibrada. Misturamos - com alguma ou dose alguma de livre arbítrio - fatos, tropeços e dores tatuados numa alquimia que nem mesmo os magos druidas seriam capazes de compreender. Ou equilibrar. Ou sequer repetir.
Não sou capaz de mensurar o mal ou bem que causei aos meus filhos e à vida que eles terão pela frente. Em que momento, adultos que são, eles lembrarão de mágoas e dores e ausências mal resolvidas. Quando olho com a condescendência e generosidade com as quais me permito julgar, acho que o estrago não foi tão grande. Outras vezes, sinto e sofro o peso insuportável da grande culpa que toda a mãe carrega. Porque as mães podem ser muito infelizes, sabiam? E pensar assim é, não raras vezes, oferecer-me a fonte luminosa do perdão.
Esse texto foi inspirado na dor às vezes tão pungente e sem conforto de Karla, amiga a quem quero bem demais. E, é claro, a quem não conforto o quanto gostaria. Porque, verdadeiramente, por mais monótono que isso pudesse ser, gostaria muito de ter todas as respostas para as dúvidas que lhe incomodam.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
A letra S
Os "esses" são o sofisma sedutor da alma humana.
Somos todos sinuosos; serpenteamos através dos sortilégios da vida; sugerimos o nosso parco ou generoso saber; saltamos para dentro ou para fora ao sabor dos sustos; salpicamos nosso silêncio com sonhos sem noção.
Temos sede; jorramos sangue; somos sensíveis, selvagens e sagrados. Sabemos ser sagazes, sarcásticos e seguros. E até, sorrateiramente, praticamos alguma pequena ou grande sacanagem. Só para sorrir, só por suspeitar, só para surpreender.
E, convenhamos, sexo é bom. Com sabor e saudade, mais ainda.
Penso sempre nesse tema e hoje resolvi não me conter no desejo de descrevê-lo, por mais bobo que seja. E é.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Embriagados pelas palavras
Já tive dias de alma amarga onde o lenitivo veio sob a forma de contos deliciosamente bem humorados. Já tive dias ensolarados onde poemas apaixonados me permitiram o espelho do que ouso sonhar. Já tive dias sem vontade alguma de escrever, querendo palavras distantes, em quarentena, sob o efeito de um vírus fatal. Dias onde esperei que os pensamentos estivessem amordaçados. Nesses momentos, pensamentos e devaneios criativos das páginas que visitei - cujos comentários em meu blog são um fácil código de identificação - foram doses profiláticas do bem que as letras equilibradamente somadas fazem ao meu nem sempre atento coração.
Curioso como até mesmo os amigos se liberam e se revelam através das palavras quando lhes é cedido um bom espaço entre a vírgula e o ponto final.
Que venham todos com suas dores e amores travestidos da emoção que é fazê-los texto.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Sob o sol do Rio
A luz do sol atravessa minha sala, reflete na tela do computador e me espelha. Me vejo em céu, em luz, em mar. Nessas horas amo muito minha cidade.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Sem emoção
apenas voz.
Não vejo nada.
Cegos estão meus pensamentos,
recobertos pela névoa da manhã sem sol.
Sorrio ou choro sem emoção.
Sou fantoche,
mamulengo ao sabor de mãos que não me pertencem.
Lágrimas, tropeços, a bronca do chefe, o dedinho que teima em procurar o pé da mesa.
Nada me fere.
Flutuo sob uma capa entorpecente.
Amanhã eu acordo.
E penso.
E olho
Fica pr´amanhã.
