sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um vento

O vento soprou meu rosto
e por um instante senti teu cheiro.
Lascívia sensação que te traz de volta
e mais uma vez me cobre como onda,
inunda minha´alma,
descarrila meu percurso.

E parecia tão real, tão perto,
até peguei tua mão e respirei teu hálito.
Memória de um gosto que não consigo desgostar,
que meu corpo não digere,
minha pele não esquece,
queima meu sono insone.

Lembrei teu jeito, teus sons,
meus sinais marcados a fogo na sua história.
Reconheci teu olhar, percebi os sinais,
impressões expressas que perdi dentro de mim
e sei como encontrar.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Falando de medos

Não sou uma pessoa medrosa, mas é evidente que tenho medos. De barata, então....desesperadamente. Medo de que aconteça algo ruim com meus filhos, de que minha mãe me falte, de perder quem amo. É claro que temo por minha saúde, segurança, patrimônio....mas além das questões da alma e do coração, só a barata me desestabiliza. Por isso tenho uma grande dificuldade em entender o pavor com que algumas pessoas interpretam situações ou acontecimentos em suas vidas.
Minha filha adquiriu um medo enorme de viajar de avião e isso tem atrapalhado em muito sua vida, profissional inclusive. E é algo tão intenso que não posso me abster de pensar sobre o tema. Ela sofre; eu sofro também. Tento argumentar com todas as questões e explicações sobre a plausibilidade de eventos relacionados à aviação, dados estatísticos, interpretações cartesianas, mas nada parece ser maior do que o pavor que a impede de compreender a razão de minhas justificativas. E o contrário é verdadeiro também. A terapia é o caminho para enfrentar esse monstro tortuoso e descobrir formas de engavetar ou administrar os temores que nos tomam de assalto.
Mas de onde essas coisas vêm? Como explicar concretamente uma sensação aterrorizante que não se fundamenta em algo palpável. Sim, acidentes aéreos costumam ser fatais. Mas fatal é a epidemia da dengue, são as balas traçantes que iluminam as noites cariocas, é o trânsito caótico diante da irresponsabilidade dos humanos. E tem os que sofrem do pavor de falar em público, dos ambientes cheios, de mergulhar no mar, de entrar em túneis, de montanha-russa, de qualquer altura, de ser observado, até de amar e não ser amado.
Quando nosso olhar é só de voyeur, de quem acompanha e sofre junto mas não tem dor é muito difícil. E quero ser condescendente, ajudar, dar colo e compreensão. Às vezes nem sei como.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Prá não levar a sério

Hoje acordei pensando em escrever alguma coisa no blog sobre a idéia de levar-se ou não a sério. Ou pelo menos muito à sério. Conversei sobre isso ontem. Na verdade, disse para uma amiga muito querida o quanto sabia ter sido ela um instrumento importante nessa minha grande e recente conquista pessoal: estou aprendendo a não levar tudo tão a sério.
Sou capaz até de rir das minhas mais patéticas fraquezas. Desapropriei o terreno seguro das minhas verdades intocáveis. E isso tem me feito menos comprometida com uma rigidez aprisionadora.
Não posso dizer que ousei tanto. Ainda carrego o peso daquele desenho de alguém a quem não é dado o direito de falhar. Mas tenho exposto tanto minhas dores, dúvidas e de uma forma tão mais bem humorada que - acho - deixei de lado o ranço das atitudes sérias. Porque séria, nesse caso, não é estar comprometida com algo que se acredita certo, mas sim não compreender que fazer de forma mais relaxada, menos dogmática, mais liberta de pré-conceitos é muito melhor.
Desencanei de uma série de coisas. E até acho chato gente que leva tudo muito a sério. Valorizo quem tem um olhar mais bem humorado, às vezes até docemente irresponsável. Adoro as incoerências e as surpresas que elas me trazem. É inspirador conviver com cabeças tresloucadas. Do bem, é claro, mas tresloucadas. Gente que pira, que chora, que ri, que vislumbra e admira. Tudo sem medida certa porque prá essa receita dar certo, só com generosas colheradas de desatino.
Não...não desatinei. Mas as bobagens hoje me são bem-vindas. Porque fazem parte de mim, um ser errático a garimpar tesouros onde brotam pedras e flores. Não necessariamente nessa ordem.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Para os amigos de verdade

Outro dia, lendo um dos muitos blogs que visito, nem sempre diariamente, mas em freqüência prá lá de intensa, o tema falava de amigos. E li porque gosto do estilo de escrever da dona do blog, porque me sinto curiosamente injusta se começo a ler e não dou a chance ao autor de me convencer de fazê-lo até o final, e basicamente porque esse é um tema que me atrai.
A idéia do grande amor expresso nas grandes amizades me seduz completamente. Acho que um amor descompromissado das pequenas ranhuras – e dos infinitos prazeres – da comunhão sexual pode ser tão intenso quanto qualquer ensandecida paixão. E tal qual a ebulição incontrolável que nos invade quando nos apaixonamos, perceber em alguém a infinita sintonia que explica, nem sei se mediunicamente, o amor por um amigo é sempre deliciosa experiência.
Tenho grandes amigos, mais ou menos recentes, mais ou menos freqüentes, mais ou menos próximos. Acho até que tenho histórias cármicas com alguns, para quem sequer me revelo porque já me vi em seus olhos e isso será sempre a mais profunda revelação.
Tenho filhos e para quem não os têm é difícil compreender a imensidão de um amor incondicional. Mas que também é responsável, formador, parametrizador. Portanto, comprometido. Embora único.
O amor amigo é sem conta conjunta, não emite fatura, não incorpora a fraternidade das relações longas. É só a certeza de um ouvir sem análise ou pelo menos sem julgamento. Talvez só argumentação, reflexão, choro e riso em generosas doses. É o olhar que observa e pondera; que sugere e aponta; que diz da forma mais condescendente e protetora. Porque não é preciso tocar na parte frágil; não é preciso incomodar. Só ficar por perto, só fazer-se perto.
Amigo mesmo é assim. E muitos dos meus vão se reconhecer nessas linhas blogueiras.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Das formas de amar

Daquilo que sei por vezes esqueço
e me perco e confundo entre ondas e marés.
Mas do amor sou escrava
porque do bem que me traz jamais me liberto.

Solto as amarras e desprendo o balão,
não quero vôo perfeito nem mesmo sereno.
Mas do amor sou escrava
e me encontro e revelo em cada susto ou sorriso.

E durmo o sono fértil da imaginação,
fantasio o romance mais tórrido e sufocante.
Mas do amor sou escrava
em todo o tempo que me é dado sonhar.

Vesti minha roupa de festa, pintei meus olhos de preto
e nem lembrei de dizer.
Mas do amor fui escrava.

Agora só falta você.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Prá mudar o mundo

Os que me conhecem já ouviram falar disso. Sou do tipo que acredita realmente que é possível mudar o mundo. Eu posso mudar o mundo e não desisto dessa idéia.
Ideologias à parte, acho que somos agentes de transformação e que não recebemos a benção de um cérebro tão sofisticado apenas para andar, falar, interagir, envelhecer e morrer. Quero mais! Muito mais! E na parte que me cabe, não posso prescindir da força inequívoca de meus atos e palavras - e não só os meus, mas o de todos - no objetivo de fazê-los instrumentos de interferência e argumentação.
Acho que posso mudar cabeças tacanhas, fazendo-as apenas observar além dos antolhos que por vezes colocamos em nós mesmos. Quero romper com práticas que minimalizam a nossa capacidade de raciocinar, impondo modelos repetidos e que, de maneira geral, sempre nos frustram. Busco e distribuo palavras de afeto - às vezes nem tão afetuosas assim - porque fazer alguém confiante é o primeiro passo para fazê-lo acreditar que sonhar é mais do que dormir e metaforizar no subconsciente. Não raras vezes estou na contramão da história, batendo de frente com quem alimenta o imobilismo, aprisionado aos grilhões de uma vida metodicamente ditatorial.
É claro que muitas vezes também não estou fazendo nada disso e preciso me despertar para voltar a acreditar que posso mudar o mundo, que sou responsável pelo o que me incomoda e que para desestabilizar as zonas de conforto é necessário enfrentar os recuos que o medo da mudança nos impõe.
Não quero desistir disso, de acreditar nisso. Não quero me render ao imobilismo. Não quero ficar somente pragmática. Porque sem emoção não há como mudar o mundo. Somos cavaleiros errantes a crer em moinhos. E nem acho tudo isso um delírio. Não posso passar essa experiência de vida sem usar as mil e uma utilidades de meu cinto de Batman.
Se isso tem ônus? Muitos. Às vezes, quase impagáveis. Mas já faz tempo que escolhi não esmorecer. Quando acho que não vou agüentar, fecho a porta e choro. E amargo o luto. Mas no dia seguinte volto à normalidade. O que não quer dizer que tudo isso seja o normal. Nem sei se é. Mas quando ainda estudante universitária aprendi a frase que guia a minha vida: quem não atua, compactua.
Dá prá perceber que gosto da adrenalina, não?

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Febre medieval da execração

Sou jornalista e vivo da indagação e da informação. Como leitora quero conhecer os fatos e suas repercussões. Como redatora, quero apresentar os fatos e até argumentar suas intercorrências. Mas não tenho a febre medieval dos que transformam pessoas em condenados à execração pública. Abomino a idéia da utilização de um veículo poderoso de informação, seja a televisão, o jornal impresso ou a internet para esmiuçar a vida de alguém, não mais importando o fato jornalístico e sim a idéia de que a humilhação, a exposição de alguém ao ridículo é a base da minha profissão.
Não gosto de intromissão na vida alheia. Nem mesmo na de meus filhos. Posso ter - e é óbvio que tenho - curiosidade. E que até entro em sites para olhar fotos de festas de "celebridades". Mas até aí querer, tal qual um urubu carniceiro e famélico, conhecer todos os aspectos que submetem as pessoas ao escárnio....tô fora! Isso vale para essa super mega exposição dos temas que nos perseguem como Ronaldo e travestis, Isabela e seus partners, os porres de Amy Winehouse e tantos outros.
É só um desafabo. Aberto, obviamente, às opiniões contrárias.

domingo, 4 de maio de 2008

Mergulho

Fui feliz quando te vi e me impedi de escutar os sinais que já falavam do mergulho sem volta.
Alertas vibrantes de mil decibéis, ensurdecendo minh´alma e me contando mentiras.
Diziam do risco do passo além, queimavam meus pés, crucificavam meu corpo à cruz do arrependimento.
Eram monstros assustadores a lembrar do preço, do ônus, do risco da paixão que turva a lucidez e suicida a razão.
Milhares de gnomos fabulescos a contar de dores, tropeços, trevas tsunâmicas.
Pensei tanto. Segundos intermináveis. Uma travessia desértica em meio às tempestades que inundam a caixa mágica dos sonhos e quebram a métrica da esperança.
Nem sei como sobrevivi. Mas o fiz, tal qual guerreiro tuaregue. E mergulhei.
Estou em pleno vôo.....ao sabor do vento que me carrega para um itinerário que escolhi...mas que desconheço....e nem sei se há pouso certo.
Mas fui tão feliz quando saltei.
Nem penso mais na chegada. Ou minto. É claro que a quero tão generosa e avassaladora. Mas o mergulho será sempre inesquecível.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Papo sem começo e sem fim

Sou alma e corpo no limiar da paixão. Estou sempre em estado de latência. Quase água fervendo, embora isso não queira dizer destempero. Nem sou assim tão descontrolada. Ao contrário, penso prá caramba. Tenho lido alguns textos em blogs que confirmam os efeitos desse vírus poderoso chamado incontinência mental. Gente que como eu não pára de pensar nunca. Sempre acho que devo um dia me meter num desses retiros espirituais para o exercício do silêncio. Vou pirar, certamente.
Mesmo quando leve e desencanada, meu envolvimento emocional se expressa nos pequenos sinais, no passo que nunca é fruto do acaso, embora o possa ser da razão. Discuto tudo sempre com torpor, embora calma, muitas vezes até irônicamente divertida. Confesso que faço assim até para não parecer uma doida desequilibrada. Embora até eventualmente o pareça, pelo menos aos olhares de alguns.
Isso é coisa de mulher? Será? Somos todas capricornianas eletrificadas? Não...sei que não. Leio blogs de gente de todo o tipo, e alma, e jeito que pensa igual. Está certo....defendo idéias e acho que vou mudar o mundo. Sempre penso que tenho argumentos tão ricos que sou capaz de fazer alguém pensar, embora isso possa definitivamente dar em nada. Mas tenho uma auto-confiança grandiosa. E sem interpretações metafóricas, acho realmente que posso porque quero e se meu querer não atropela ninguém, tenho direito de fazê-lo.
Isso tudo foi só para dizer que tenho me exposto demais. Não aqui, nesse democrático espaço, onde sou como sou. Ou até não sou sempre. Ou quem sabe muito de vez em quando. Mas alguma coisa sempre vai sobrar dessa alma quase vulcânica, de erupções instantâneas, eventualmente computadorizadas.
Mas tenho revelado fraquezas. Quanto mais escrevo aqui, mais me revelo. E ao me revelar, pego o gosto pela coisa. Estou especialmente sensível, do tipo que se fragiliza - embora nem sempre deixe transparecer - por acontecimentos, ou palavras, ou olhares tão desimportantes. Às vezes nem me reconheço. Ou só me surpreenda.
Será que precisei passar tantos anos para conhecer, pelo menos mais intimamente, essa criatura que habita em mim?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quero um dia

Um dia de loucura.

Preciso desesperadamente de um dia ensandecido que me permita a fantasia de alguém que posso ser sem consequências. Porque até aceito o ônus de decisões mal tomadas, de escolhas equivocadas, de caminhos tortos na direção do muro. As consequências, o dia seguinte, o olhar enviezado, o ter que explicar, justificar e defender é que me cansam. Ou me amedrontam.

Quero um dia sem convenções, sem preconceitos, sem dogmas ou manuais de sobrevivência. Onde possa me permitir os instintos em sua forma mais pura e certamente menos palatável. Fisiologicamente incontroláveis.

Quero um dia sem roteiro, sem compromisso, inteiramente disponível e hedonista. Um dia encantado, completamente nirvana, verdadeiro xanadu. Onde sonhos sejam sugestões bem aceitas. Somente os bons sonhos.

Quero um dia de amor. Sob todas as formas, cores, sabores. De prazer e sem aventura. Mas sem medo também. Sem montanha-russa ou bumg jump. Só desavergonhadamente à vontade. Um dia de sol, de mar, de corpos e areia.

Quero um dia sem depois. Só quem sabe, só talvez. Um dia sem certezas aprisionadoras, sem promessas definitivamente não cumpríveis. Um dia além. Nunca mas nem entretanto. Um dia para nem mesmo lembrar. Só viver.

sábado, 19 de abril de 2008

O beijo

O beijo marcou minha pele.
E desde então carrego comigo o novo sinal.

A ele recorro todas as vezes que penso lembrar,
que lembro pensar,
que quero sorrir e aquecer minh´alma com a ebulição daquela boca.

Fui abduzida, perdi o prumo, larguei o timão.
Voei sem autonomia,
nem sei pilotar.

Mas o beijo marcou minha pele,
corrompeu o tempo,
deixou pegadas.

Que delirantemente sigo...
e sigo...
nem sei se quero encontrar.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

As marcas que carregamos

Somos resultados do quê, afinal? De um destino pré-traçado, cristalizado nas entranhas de nossas escolhas e caminhos? Das experiências que vivemos e do bem ou mal que elas nos proporcionam? Das influências, cruéis ou generosas, que outras pessoas exercem sobre nós? Das marcas que os pais nos tatuam através da infância e das quais só reconhecemos os efeitos quando maduros para dizer não? Mas aí já é tão tarde.
Li um livro recentemente que fala sobre o tema. É Marcas de Nascença, de Nancy Huston, leitura visceral em alguns momentos. Tantas vezes dolorosa; outras reconfortante. Tenho pensado o quanto tudo o que fazemos, e pensamos, e até o que construímos através da vida formam uma delirante e irresponsável aventura. E irresponsável aí quer dizer simplesmente "sem limite, sem preparação, verdadeiramente inconsequente". Estamos em estado de dúvida permanente, a brigar com o que achamos que somos, escravizando os desejos aos olhos de um destino que um dia imaginamos traçar, impondo-nos cotidianamente decepções e desvios de rota, tropeçando em experiências frustrantes e seguindo em frente.
Temos filhos e os fazemos novos personagens dessa grande corredeira e sequer sabemos bem de que forma fazer para - lá na frente - não os tatuarmos com todas as dores e ausências e carências que trouxemos de nossos pais. Achamos que sabemos tudo e que o resultado será glorioso. Mas nem sempre dá certo. Ou nunca é assim. Happy-end sem dor, sem marca de nascença, só nas fábulas midiáticas.
Porque somos uma grande sopa psicodélica desequilibrada. Misturamos - com alguma ou dose alguma de livre arbítrio - fatos, tropeços e dores tatuados numa alquimia que nem mesmo os magos druidas seriam capazes de compreender. Ou equilibrar. Ou sequer repetir.
Não sou capaz de mensurar o mal ou bem que causei aos meus filhos e à vida que eles terão pela frente. Em que momento, adultos que são, eles lembrarão de mágoas e dores e ausências mal resolvidas. Quando olho com a condescendência e generosidade com as quais me permito julgar, acho que o estrago não foi tão grande. Outras vezes, sinto e sofro o peso insuportável da grande culpa que toda a mãe carrega. Porque as mães podem ser muito infelizes, sabiam? E pensar assim é, não raras vezes, oferecer-me a fonte luminosa do perdão.


Esse texto foi inspirado na dor às vezes tão pungente e sem conforto de Karla, amiga a quem quero bem demais. E, é claro, a quem não conforto o quanto gostaria. Porque, verdadeiramente, por mais monótono que isso pudesse ser, gostaria muito de ter todas as respostas para as dúvidas que lhe incomodam.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A letra S

Adoro as palavras com a letra S. E há muito sempre ofereço aos amigos, no baú dos souvenirs, a trilogia clássica: sorte, saúde e sucesso.
Os "esses" são o sofisma sedutor da alma humana.
Somos todos sinuosos; serpenteamos através dos sortilégios da vida; sugerimos o nosso parco ou generoso saber; saltamos para dentro ou para fora ao sabor dos sustos; salpicamos nosso silêncio com sonhos sem noção.
Temos sede; jorramos sangue; somos sensíveis, selvagens e sagrados. Sabemos ser sagazes, sarcásticos e seguros. E até, sorrateiramente, praticamos alguma pequena ou grande sacanagem. Só para sorrir, só por suspeitar, só para surpreender.
E, convenhamos, sexo é bom. Com sabor e saudade, mais ainda.

Penso sempre nesse tema e hoje resolvi não me conter no desejo de descrevê-lo, por mais bobo que seja. E é.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Embriagados pelas palavras

Tenho lido tantos bons textos.... São blogs de gente que - como eu - se embriaga voluntariamente com doses generosas de palavras. Sem medo da exposição cirrótica da alma.
Já tive dias de alma amarga onde o lenitivo veio sob a forma de contos deliciosamente bem humorados. Já tive dias ensolarados onde poemas apaixonados me permitiram o espelho do que ouso sonhar. Já tive dias sem vontade alguma de escrever, querendo palavras distantes, em quarentena, sob o efeito de um vírus fatal. Dias onde esperei que os pensamentos estivessem amordaçados. Nesses momentos, pensamentos e devaneios criativos das páginas que visitei - cujos comentários em meu blog são um fácil código de identificação - foram doses profiláticas do bem que as letras equilibradamente somadas fazem ao meu nem sempre atento coração.
Curioso como até mesmo os amigos se liberam e se revelam através das palavras quando lhes é cedido um bom espaço entre a vírgula e o ponto final.

Que venham todos com suas dores e amores travestidos da emoção que é fazê-los texto.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Sob o sol do Rio

Hoje o sol brilha intensamente no Rio. Aquela coisa meio mágica que inspira os cariocas - e os que não são também - e que nos faz contemplar. Gosto demais dos dias assim. Mesmo nos dias tristes, sou solar e diurna. As mazelas da cidade ( e olhe que são muitas), as filas nos hospitais, esse mosquito multimídia, tudo parece menor quando sob o céu em azul desavergonhado e desvirginado. Aquele que rompe, com doçura mas rigidez, as janelas que, não raras vezes, fecham-se ao brilho de um novo e sedutor dia.
A luz do sol atravessa minha sala, reflete na tela do computador e me espelha. Me vejo em céu, em luz, em mar. Nessas horas amo muito minha cidade.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sem emoção

Faço-me voz,
apenas voz.

Não vejo nada.
Cegos estão meus pensamentos,
recobertos pela névoa da manhã sem sol.

Sorrio ou choro sem emoção.
Sou fantoche,
mamulengo ao sabor de mãos que não me pertencem.

Lágrimas, tropeços, a bronca do chefe, o dedinho que teima em procurar o pé da mesa.
Nada me fere.
Flutuo sob uma capa entorpecente.

Amanhã eu acordo.
E penso.
E olho

Fica pr´amanhã.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Dragão e anjo

Dentro de mim mora um dragão. Do amor e da maldade. Tem múltiplas facetas. Sempre travestido de almas diversas. Já foi aprisionado, já foi liberto. Conheceu a alforria e a vassalagem. Arranhou paredes e invadiu o inexpugnável. No dia de hoje - talvez só hoje - ele é personagem adestrado. Escorrega de vez em quando. De quando em vez ignora a voz de comando. E urra, e solta labaredas, mas queima pouco... O extintor da minha consciência parece estar em alerta, a apontar seu jato na direção do fogo que teima em jorrar de meus poros.
Mas cuido bem dessa insana criatura. O quero bem perto de mim. Assim até posso imaginar que o controlo e domino. Ou lhe deixo bicho solto, sem rédeas ou controle, a passear entre meus sonhos e delírios, a infernizar meu conforto, a queimar minha sanidade, a dar de cara com a coragem do anjo que também mora em mim.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Sem bússola

Era só brincadeira.
Um jeito meio lúdico meio ingênuo de seduzir.

Pequenos sinais, gestos suaves,
disfarçados sorrisos, olhares machadianos,
palavras doces, viagem sem bússola.

E do pequeno mergulho
fêz-se onda taquicárdica

E foi-se o equilíbrio, o esconderijo.
Decifrei meu segredo.
Te devorei.

Nonsense

Na manhã de ontem, acordei.
E no breve hiato entre abrir os olhos e reconhecer onde estava......me perdi.

Dormi horas, dias, meses, anos....hibernei e desaprendi a pensar.
Esqueci os tempos passados na prisão da sensatez.
Vivi instintivamente, rompi diques, ignorei convenções, saltei além da linha do horizonte e descansei.

E dormi horas, dias, meses, anos.....e nem sonhei.
Travestida em um espírito liberto e transgressor.
A cruzar estradas curvas, sem limite de velocidade, sem placas, pedágios ou compromisso da linha retilínea e monocromática.

Lembro de fragmentos de sons, trechos de textos que li, de vozes longínquas e reconhecíveis.
Um mundo em preto e branco, um copião de Super 8, películas quadro a quadro, surpresas de uma história que contaram.
Ou será que narrei?

E dormi horas, dias, meses, anos....nem sei se morri.
Rosto lívido, maquiagem intocada, mãos sobre o peito e a serenidade dos que não têm mais o que contar.
Ou explicar. Ou convencer.

E quando tudo parecia prá sempre, o despertador tocou.
Vibrato chinfrim.
Já acho que sou mais criativa dormindo.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Aos que entram em nossas vidas...

Li hoje um texto enviado por uma amiga muito querida e que falava das pessoas que entram em nossas vidas e nos transformam. Pessoas que escolhemos ou nos escolhem...não sei bem a ordem ou a desordem dessa afirmação. Não sei nem mesmo o que existe de mágico, esotérico, espiritual, além da explicação cartesiana em tudo isso. Só sei que isso tem em mim uma significação real.

Através da vida conheci várias pessoas que me transformaram, ainda que apenas me permitindo ver, tal qual espelho, o que insistia em olhar com olhos cegos. Muitas outras tiveram influência direta nas minhas escolhas, nos meus caminhos, na maneira como passei a olhar a vida e suas múltiplas possibilidades. E parafraseando a linha inspiradora do texto que li, pessoas chegam às nossas vidas para nos fazer novas pessoas. Às vezes melhores, às vezes nem tanto. Mas novas e, eventualmente, surpreendentes pessoas.

É incrivelmente produtivo - e auto-perdoável - pensarmos em nós mesmos sob a luz da incoerência. Quero, sim, poder ser uma nova pessoa a cada dia. É libertador pensar que nos foi dada essa possibilidade, ainda que pelo olhar generoso do outro, d`aquele que nos transforma. Não quero dogmas, nem verdades absolutas e aprisionadoras. Quero ouvir - e já vivi essa experiência tantas vezes - a palavra que quebra minha cadeia atômica e me faz reconhecer uma luz, uma idéia, um comportamento, uma característica que quero trazer para mim.

Continuo conhecendo pessoas que me transformam, que injetam cimento novo em meus alicerces, que me fazem lembrar que posso e devo buscar sonhos, nem que seja só para sonhar juntos. E elas, sem dúvida, me fazem melhor a cada dia. Mais consciente até mesmo do que preciso fazer para amá-las em sua infinita dimensão.

Olhar cru...olhar doce

Quero o olhar cru, sem condescendência. Dos bons olhinhos já estou repleta. Especialmente dos meus, os quais me ofereço em generosas doses. Quero o confronto de idéias, quero a contestação, quero o amargor da palavra dita sem agressão, apenas com a dose certa do que quero e preciso ouvir. Até para reconhecer o quanto é bom o olhar doce e cuidadoso de quem me ama.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O outro lado do muro

Há muito tempo escolhi acreditar. Diante dos prazeres ou da adversidade, optei por enfrentar. Mesmo quando desisti, o recuo me fez renovar. Não sei se o que faço é o melhor. Mas talvez me conforte imaginar que optei por ver o outro lado do muro. Se pulei sempre? Certamente não. Mas por muitas vezes não temi, e quando tive medo, escolhi a escada, opção segura mas também caminho. Não tenho porque desistir, não sei viver sem me imaginar mais à frente, ainda que o mais à frente seja o que está atrás de mim.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Românticos e brucutus

Adoro a idéia de um pensamento romãntico, mesmo quando - capricorniana que sou - vejo a vida de uma forma reta. E porque gosto de ideais, porque acredito que sonhar é o primeiro passo e porque acho que posso mudar o mundo, admiro almas românticas. Especialmente quando são almas do sexo masculino.
Homens - não todos, felizmente - são seres aprisionados por um conceito brucutu, onde emoções só devem ser vividas no gozo do prazer, na realização de um objetivo concreto ou, quando muito, na lúdica brincadeira dos filhos. Quando ouço, vejo ou leio homens que rompem com esse minimalismo de idéias, que se permitem à reflexão e ao pensamento desantolhado, tenho mais confiança em um caminho onde mulheres, como minha sonhadora filha, poderão usufruir de um homem que faz da alma e do coração utensílios fundamentais ao seu dia-a-dia. E sem pieguismo.
Que bom que fui capaz de também fazer um filho assim, que acredita que palavras e gestos são a expressão mais clara de um torpor apaixonado, que move montanhas e transforma o mundo. E não metaforicamente.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Sem título

Te olho e me vejo
Ou me vejo através do teu olhar,
que me espelha e denuncia,
sem pudor ou receio.

Te vejo e me dispo
Ou me entrego aos olhos serenos,
que me contemplam e perdoam,
sem custos ou dor.

Te dispo e me revelo
Ou me perco sob os olhos cegos,
que me desenham e retocam,
sem medo ou cuidado.

O tom professoral

Bem-vindo e abominável tom professoral! Sou vítima ou dele me aproveito? Tenho convicção de que não tenho a pretensão de saber as verdades do mundo, os caminhos, as rotas e desvios. Mas devo vestir muito bem esse personagem porque a ele sempre retorno, seja pelo livre arbítrio, seja pelo arbítrio dos que assim me olham. Talvez deva desistir de imaginar que culpas não tenho. Sou eu mesmo que construo essa imagem, por vezes tão amiga, em outras, fontes de incômodo e desprazer.
Não... não é verdade que eu seja alguém que possa explicar tudo, ou ter sempre uma palavra equilibrada sobre tudo.Talvez deva me permitir não ter o que dizer, o descompromisso, o conforto dos que não sabem. Do que ter que, não raras vezes, conviver com o olhar dos que imaginam sofrer a censura dos meus pensamentos, a interrogação do meu olhar. Às vezes penso o quão bom seria não ser olhada assim. E quem sabe permitir aos outros entender que também preciso de um olhar professoral, que analisa e ensina, que argumenta e sugere, que pensa comigo sobre minhas dúvidas e incertezas.
Acho que me sinto cansada de ser alguém a quem não é dado o direito de vestir a fantasia dos que querem mais ouvir do que falar, dos que não se comprometem com opiniões sobre tudo, dos que podem ser frágeis sem surpreender ao mundo.
Queria não achar que tenho sempre algo importante a dizer. Queria minimizar ou redesenhar meus pensamentos para talvez ser querida pelo que sou por inteiro, e não pela parte mais "perfeita" ou "palatável". Sou mais do que a equilibrada, a racional, a certinha, a boa profissional, a boa mãe, a quem tem um casamento legal.
A sensação de que essa outra parte não é visível é muito ruim. Ou então a culpa é minha mesmo.