segunda-feira, 24 de março de 2008

Dogmas antolhados

Queria muito desencanar de um olhar reto, antolhado e dogmático que por vezes me toma de assalto. E sei que posso ser leve, bem-humorada, repleta de compreensão e condescendência. Não preciso convencer ninguém de nada; fazer da minha idéia do certo um manual para todos os equipamentos, para todas as pessoas, para todos os meus medos e afins. Mas meu despojamento é sempre tão contradítório e volta e meia me leva para uma trilha onde brincar e ser feliz podem estar vestidos de gente grande. A inconsequência jamais me será companheira; quem sabe somente sorrateira.
Eu levo tudo a sério e isso pode ser bom....de vez em quando. E ruim....de quando em vez. Mas, embora sofra - e não raras vezes - o olhar enviezado dos que contestam ou discordam de minha "seriedade", e até me incomode ou me condene, acho que nem sei olhar o mundo, as pessoas, minha vida sem essa corda que impede o meu balão de voar sem rumo. E entre o delírio fugaz e o prazer sereno, estou sempre - ou quase - no terreno seguro da paz comigo mesmo.

A arte da paciência

Mao Tsé Tung disse uma vez: " A paciência é uma virtude revolucionária". A cada vez que exercitamos com equilíbrio a arte da paciência, rompemos muros, destruímos fortalezas, quebramos átomos. E isso é, sem dúvida, revolucionário. Admiro os que exercem a paciência. E tento - nem sempre com sucesso - copiá-los.

Se cada dia cai ( Pablo Neruda)

Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.

Sem voz

Queria que as palavras me fôssem amigas hoje. Que viessem tal qual queda d´água, sorrateira e inabitável. Ultrapassando desavergonhadamente os empecilhos, pedras, falhas, recuos. Queria dizer....sem restrição ou temor. Num idioma que fluísse, que fizesse dos sons, música; dos abraços, passos além. Que T.S. Elliot baixe sua grandeza sobre mim e me faça viver o que acredito. Porque tudo é sempre agora.

Para quem gosta da voz e da alma de Pablo Neruda


Gosto muito dos textos e poemas de Pablo Neruda. Me identifico com a alma apaixonada, para quem não existem dores ou prazeres pela metade. T.S. Elliot escreveu uma vez que "...tudo é sempre agora." Acho que essa idéia está presente na minha vida, nas minhas escolhas, na forma como vivo minhas alegrias e dores. Intensamente.

Saudade ( Pablo Neruda)

Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já.
Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver um futuro que nos convida.
Saudade é sentir que existe o que não existe mais.
Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam.
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade......aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sentimentos: não ter por quem sentir saudade. Passar pela vida e não viver. O maior sofrimento é nunca ter sofrido.

Individualidade indivisível

Nada a declarar contra a individualidade. Ela me é muito cara. É meu norte, minha linha mestra, meu trilho e corredor. Não tenho e não quero um mundo só meu. Mas parte dele me pertence e nesse minifúndio quero me dar ao luxo da solidão bem-vinda. Quero poder me colocar e expor por deliberada decisão. Seja ou não boa escolha. Quero ter opinião individual e indivisível, ainda que na contramão da voz comum. Se é assim que tudo é, sou também. Individual a buscar o coletivo e ter nele prazer e alimento. Não sei se é certo, não sei se há o certo. Só sei. Ou não.

Tormenta e calmaria

Todo dia acordo repleta de certezas, que reafirmam-se ou se esvaem ao sabor das horas. Nem todas me angustiam. Gosto da idéia da mudança, do movimento, da surpresa. Mas quase sempre tenho algum momento de desconforto diante delas. Tenho uma natureza certinha, mas uma alma inquieta a provocar deliberadamente que se abra a janelinha que leva ao outro lado do muro.
Não almejo o perigo, gosto da ausência de sustos, do que é seguro. Não quero saber do que vai acontecer no futuro. Mas surpreender-me é sempre um prazer. Quero um mundo cor de rosa, mas não abro mão da paleta de cores para pintar sem limites. E ousar, mesmo quando minha vida e minha alma me dizem não.

Estreando....



Para começar algo novo preciso da luz do sol, do brilho da lua, da imensidão do mar, da solidão, do silêncio, do riso alegre, do barulho, do compromisso descompromissado. Ou faço fantasias num universo paralelo e destas me alimento e consumo. Vivo a vida que quero, crio a mais linda obra de arte, pinto as faces coloridas dos muitos personagens.
Para a estréia de hoje só preciso das palavras e do olhar de quem as vê. Despudorado e sereno