Nessa tarde chuvosa de domingo leio o livro de crônicas da Martha Medeiros - Doidas e Santas - e em um dos textos ela lembra dos dias em que não estamos para festa. Tudo corre em seu ritmo normal, mas os fatos de sempre ou os novos, um acontecimento, um olhar, a força das palavras, a expectativa ou a ausência que elas nos trazem ganham uma dimensão que nos empurra para a tristeza. A isso Martha define como " um sentimento tão legítimo como a alegria". E lembra: "...que nos deixem quietos que quietude é armazenamento de força e sabedoria....daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta".
Me identifico muito com essa descrição. Porque hoje, agora, nesse minuto, me sinto triste e quero a quietude. Para pensar justamente no que me entristece, ainda que sabendo que amanhã carregarei comigo o viço da crença do novo dia. Como o cheiro do mar que quebra na praia nas manhãs sem sol. Gostoso, inspirador, quase um parto que traz consigo o sorriso dos que acompanham aquela chegada.
Porque quero pensar em chegada e esquecer as partidas. Porque quero ver minha mãe tão frágil e só pensar em compartilhar mais e mais de todo o tempo bom e rico que, juntas, me permitirão fazê-la acarinhada. Porque minha vida também está registrada naquela pequenina figura a lembrar de mim como quem cuida e roga. Como quem oferece e solicita. Como quem chega e parte.
Minha mãe... meus filhos...hoje só quero tê-los todos no meu colo e ninar com a mais harmoniosa cantiga. E dizer de amor e falar de doce e canção; e lembrar de versos e bolas de gás; de amarelinha e purê de batata. Das noites de natal e velas de aniversário.
É só uma melancolia episódica que me faz lembrar do quanto a finitude me angustia.
Amanhã, mesmo que o sol não brilhe no céu, vou fazê-lo brilhante aos meus olhos míopes.
Mostrando postagens com marcador Como quem cuida e roga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Como quem cuida e roga. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Assinar:
Comentários (Atom)
